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27/05/2013
30/11/2011
Ser fiel é tão arriscado quanto trair', diz psicanalista
Folha de S. Paulo
IARA BIDERMAN
EM LONDRES
IARA BIDERMAN
EM LONDRES
Autor de livros de sucesso, o psicanalista britânico Adam Phillips atrai leitores fugindo do jargão e tratando de temas como o flerte ou a gentileza, que não costumam receber atenção acadêmica. Suas obras, que combinam psicanálise, filosofia e literatura, são populares, mas ele mesmo, não. Nem e-mail tem. "Restringi ao máximo minhas formas de comunicação."
Phillips trabalha agora em "Missing Out", um livro sobre coisas que deixamos de lado na vida, a ser lançado no segundo semestre de 2012.
Nesta entrevista feita em seu consultório, em Londres, o autor de "Monogamia" fala sobre riscos da crença no "felizes para sempre".
*
Folha - Em "Monogamia", o senhor diz que não há nada mais escandaloso do que um casamento feliz. Por quê?
Adam Phillips - O que amamos e odiamos num casamento feliz é ver nossos primeiros desejos e medos acontecendo na vida real. Toda criança começa seu desenvolvimento em uma relação monogâmica, com a mãe. E a maioria passa os primeiros 11, 15 anos da vida muito conectada a mãe e ao pai. É uma espécie de monogamia bissexual. Crescer é passar da necessidade de ter só uma pessoa para a necessidade de ter duas (mãe e pai) e a necessidade e a capacidade de se relacionar com várias.
Daí nossa tendência para a relação monogâmica?
A relação monogâmica é uma memória muito poderosa, é onde começamos. Hoje, muita gente acha difícil manter uma relação monogâmica. Queremos coisas opostas, desejamos coisas proibidas e não sabemos que queremos essas coisas. A cultura torna os desejos muito problemáticos. Muitas pessoas desejam um relacionamento monogâmico, apesar de não serem capazes de lidar com ele.
Quais são as maiores dificuldades da monogamia?
Os problemas surgem quando as pessoas desejam esse tipo de relacionamento, mas não conseguem realizá-lo. E para quem pensa que é isso o que deseja, mas descobre que não era o que queria.
A solução, no caso dessas pessoas, é a infidelidade?
Sim. E pode dar certo, mas sempre com conflito. Todo mundo tem ciúme sexual, ninguém suporta dividir seu parceiro de sexo. Alguns dizem que suportam, mas é impossível. Se amamos e desejamos alguém, não queremos dividi-lo com outros.
Isso tem a ver com a memória da relação entre mãe e bebê?
Sim. E também com o fato de termos necessidades e só determinadas pessoas poderem satisfazê-las.
Concorda com a tese de que mulheres são por natureza propensas à monogamia?
Acredito na teoria da evolução de Darwin, mas penso que evolução envolve cultura. Há boas explicações em termos de sobrevivência da espécie para sustentar que a mulher quer um homem para a vida toda e o homem deseja mais parceiras, mas não acho que a questão da sobrevivência seja a explicação final. Se fosse, a família nuclear seria a única coisa óbvia a se fazer.
Há diferentes formas de garantir a reprodução da espécie, há muitos jeitos de criarmos as crianças. E muitas formas de fazer sexo, não explicadas por essas teorias.
O senhor diz que uma sociedade sem a possibilidade de infidelidade seria perigosa...
Seria uma mentira. Colocaria pressão demais nos casais, obrigando um a ser tudo para o outro. É uma demanda moral irrealista. Outro perigo é a monogamia acabar com o desejo e virar uma prisão.
Acha a sociedade hipócrita em relação à monogamia?
Sim, se ela afirmar que é a única forma boa de relação para todos e o tempo todo.
Mas hoje também há muita gente dizendo que toda relação monogâmica é hipócrita, o que não é verdade. Para alguns, é um desejo genuíno, uma experiência real.
Mas hoje também há muita gente dizendo que toda relação monogâmica é hipócrita, o que não é verdade. Para alguns, é um desejo genuíno, uma experiência real.
Tão real quanto traição?
As duas formas são construções sociais. O capitalismo trivializou a paixão, fez com que as pessoas se desiludissem em relação ao amor. Isso leva a pensar que as relações sexuais são algo que se compra no mercado só para levar a vida adiante. O capitalismo tenta dissuadir a criação de vínculos reais. E valoriza demais o prazer. E, para a psicanálise, o prazer é sempre um problema. Qualquer pessoa que te venda um prazer fácil está mentindo. Se o que queremos é prazer profundo, com troca entre pessoas, ele será difícil, cheio de conflitos.
Como lidar com os conflitos?
As crianças deveriam ter aulas na escola sobre frustração, para entender como ela é valiosa. Para adultos, a psicanálise ajuda, é educativa. Os adultos precisam aprender a ser adultos. A maioria age como adolescente, não quer crescer, acredita em fórmulas mágicas de relacionamento.
A fórmula 'feliz para sempre'?
Claro, é um ideal enganoso. Assim como achar que a pessoa que não se prende a ninguém é livre. São dois ideais igualmente enganadores.
A monogamia não é também uma forma de evitar riscos?
Pode ser. Correr riscos é muito importante, mas não devemos pressupor que todos os riscos estão na infidelidade. Fidelidade é tão arriscada quanto traição, há muitos riscos na monogamia.
Quais são eles?
Numa relação monogâmica, cada parceiro sabe e não sabe muitas coisas íntimas sobre o outro. Outro risco é descobrir as limitações do relacionamento humano, o quanto a outra pessoa pode de fato fazer por você. E há o risco de formar uma família.
Por que não considerar esses riscos tão atraentes quanto os riscos da traição?
Não fomos capazes de produzir relatos excitantes sobre a monogamia. Os bons romances são sobre adultério. Por isso, é difícil articular de forma interessante os prazeres da monogamia. Fica parecendo algo tedioso. Além disso, fomos educados para acreditar que a vitalidade está na heresia. Mas pode haver vitalidade nos dois tipos de relacionamento. O ocidental moderno e culto assume que a vitalidade esta só na heresia. Também está, mas essa não é toda a verdade.
Do que precisamos, afinal?
De boas histórias que nos ajudem a viver. As únicas verdades úteis são as que nos ajudam a viver. Num relacionamento, o que você precisa é criar uma história na qual se sinta vivo com a outra pessoa.
Hoje, temos mais opções para criar essa história?
Não sei. A cultura liberal oferece mais escolhas do que havia antes. Mas o capitalismo cria a ilusão de que temos muitas escolhas, quando na verdade temos muito poucas.
A única escolha é ser feliz ou não. É isso que está sendo vendido como o único programa: quanto prazer você pode ter, quão feliz pode ser. Só que felicidade pode ser como uma droga, nunca satisfaz, você quer sempre mais. Há coisas muito mais importantes que a felicidade: justiça, generosidade, gentileza.
10/11/2011
Ninguém está acima da lei. Mas, quem é ninguém? O que é a lei? Qual é a verdade?
por Jorge Luiz Souto Maior, prof. livre docente da Faculdade de Direito da USP
Para deslegitimar o ato de estudantes da USP, que se postaram contra a presença da polícia militar no campus universitário, o governador Geraldo Alckmin sentenciou: “Ninguém está acima da lei”, sugerindo que o ato dos estudantes seria fruto de uma tentativa de obter uma situação especial perante outros cidadãos pelo fato de serem estudantes. Aliás, na sequência, os debates na mídia se voltaram para este aspecto, sendo os estudantes acusados de estarem pretendendo se alijar do império da lei, que a todos atinge.
Muito precisa ser dito a respeito, no entanto.
Para deslegitimar o ato de estudantes da USP, que se postaram contra a presença da polícia militar no campus universitário, o governador Geraldo Alckmin sentenciou: “Ninguém está acima da lei”, sugerindo que o ato dos estudantes seria fruto de uma tentativa de obter uma situação especial perante outros cidadãos pelo fato de serem estudantes. Aliás, na sequência, os debates na mídia se voltaram para este aspecto, sendo os estudantes acusados de estarem pretendendo se alijar do império da lei, que a todos atinge.
Muito precisa ser dito a respeito, no entanto.
Em primeiro lugar, a expressão, “Ninguém está acima da lei”, traduz um preceito republicano, pelo qual, historicamente, se fixou a conquista de que o poder pertence ao povo e que, portanto, o governante não detém o poder por si, mas em nome do povo, exercendo-o nos limites por leis, democraticamente, estatuídas. O “Ninguém está acima da lei” é uma conquista do povo em face dos governos autoritários. O “ninguém” da expressão, por conseguinte, é o governante, jamais o povo. Claro que nenhum do povo está acima da lei, mas a expressão não se destina a essa obviedade e sim a consignar algo mais relevante, advindo da luta republicana, isto é, do povo, para evitar a deturpação do poder.
Nesse sentido, não é dado ao governante usar o preceito contra atos de manifestação popular, pois é desses atos que se constroem, democraticamente, os valores que vão se expressar nas leis que limitarão, na sequencia, os atos dos governantes.
Dito de forma mais clara, a utilização do argumento da lei contra os atos populares é um ato anti-republicano, que favorece o disfarce do império da lei, ao desmonte da contestação popular aos valores que estejam abarcados em determinadas leis.
Foi isso, aliás, que se viu recentemente em torno do direito das pessoas se manifestarem, de forma organizada e pacífica, contra a lei que criminaliza o uso da maconha. Todos estão sob o império da lei, mas não pode haver obstáculos institucionalizados para a discussão pública da necessidade ou não de sua alteração.
A lei, portanto, não é ato de poder, não pertence ao governante. A lei deve ser fruto da vontade popular, fixada a partir de experiências democráticas, que tanto se estabelecem pelo meio institucionalizado da representação parlamentar quanto pelo livre pensar e pelas manifestações públicas espontâneas.
E, ademais, qual é a verdade da situação? A grande verdade é que os alunos da USP não estão querendo um tratamento especial diante da lei. Não estão pretendendo uma espécie da vácuo legal, para benefício pessoal. Para ser completamente, claro, não estão querendo fumar maconha no Campus sem serem incomodados pela lei. Querem, isto sim, manifestar, democraticamente, sua contrariedade à presença da PM no Campus universitário, não pelo fato de que a presença da polícia lhes obsta a prática de atos ilícitos, mas porque o ambiente es colar não é, por si, um caso de polícia.
Querem pôr em discussão, ademais, a legitimidade da autorização, dada pela atual Direção da Universidade, em permitir essa presença.
A questão da legitimidade trata-se de outro preceito relevante do Estado de Direito, pois a norma legal, para ser eficaz, precisa ser fixada por quem, efetivamente, tem o poder institucionalizado, pela própria ordem jurídica, para poder fazê-lo e, ainda, exercer esse poder em nome dos preceitos maiores da razão democrática.
Vejamos, alguém pode estar questionando o direito dos alunos de estarem ocupando o prédio da Administração da FFLCH, sob o argumento de que não estão, pela lei, autorizados a tanto. Imaginemos, no entanto, que a Direção da Unidade, tivesse concedido essa autorização. A questão, então, seria saber se quem deu autorização tinha a legitimidade para tanto e mais se os propósitos da autorização estavam, ou não, em conformidade com os preceitos jurídicos voltados à Administração Pública.
Pois bem, o que os alunos querem é discutir se a autorização para a Polícia Militar ocupar os espaços da Universidade foi legítima e quais os propósitos dessa autorização. Diz-se que a presença da Polícia Militar se deu para impedir furtos e, até, assassinatos, o que, infelizmente, foi refletido em fatos recentes no local. Mas, para bem além disso, a presença da Polícia Militar tem servido para inibir os atos democráticos de manifestação, que, ademais, são comuns em ambientes acadêmicos, envoltos em debates políticos e reivindicações estudantis e trabalhistas. Uma Universidade é, antes, um local experimental de manifestações livres de ideias, instrumentalizadas por atos políticos, para que as leis, que servirão à limitação dos atos dos nossos governantes, possam ser analisadas criticamente e aprimoradas por intermédio de práticas verdadeiramente democráticas.
A presença ostensiva da Polícia Militar causa constrangimentos a essas práticas, como, aliás, se verificou, recentemente, com a condução de vários servidores da Universidade à Delegacia de Polícia, em razão da realização de um ato de paralisação de natureza reivindicatória, o que lhes gerou, dentro da lógica de terror instaurada, a abertura de um Inquérito Administrativo que tem por propósito impingir-lhes a pena da perda do emprego por justa causa.
Dir-se-á que no evento que deu origem à manifestação dos alunos houve, de fato, a constatação da prática de um ilícito e que isso justificaria o ato policial. Mas, quantas não foram as abordagens que não geraram a mesma constatação? De todo modo, a questão é que os fins não justificam os meios ainda mais quando os fins vão muito além do que, simplesmente, evitar a prática de furtos, roubos, assassinatos e consumo de drogas no âmbito da Universidade, como se tem verificado em concreto.
Há um enorme “déficit” democrático na Universidade de São Paulo que de um tempo pra cá a comunidade acadêmica, integrada por professores, alunos e servidores, tem pretendido pôr em debate e foi, exatamente, esse avanço dessa experiência reivindicatória que motivou, em ato de represália, patrocinado pelo atual reitor, o advento da polícia militar no campus, sob a falácia da proteção da ordem jurídica.
A ocupação da Administração da FFLCH pelos alunos, ocorrida desde a última quinta-feira, não é um ato isolado, advindo de um fato determinado, fruto da busca frívola de se “fumar maconha” impunemente no campus. Fosse somente isso, o fato não merecia tanta repercussão. Trata-se, isso sim, do fruto da acumulação de experiências democráticas que se vêm intensificando no âmbito da Universidade desde 2005, embora convivendo, é verdade, com o trágico efeito do aumento das estratégias repressoras. Neste instante, o que deve impulsionar a todos, portanto, é a defesa da preservação dos mecanismos de diálogo e das práticas democráticas. Os alunos, ademais, ainda que o ato tenha tido um estopim, estão sendo objetivos em suas reivindicações: contra a precarização dos direitos dos trabalhadores; contra a privatização do ensino público; contra as estruturas de poder arcaicas e autoritárias da Universidade, regrada, ainda, por preceitos fixados na época da ditadura militar; pela realização de uma estatuinte; e contra a presença da Polícia Militar no Campus, que representa uma forma de opressão ao debate.
O ato dos alunos, portanto, é legítimo porque seus objetivos estão em perfeita harmonia com os objetivos traçados pela Constituição da República Federativa do Brasil, que institucionalizou um Estado Democrático de Direito Social e o fato de estarem ocupando um espaço público para tanto serve como demonstração da própria origem do conflito: a falta de espaços institucionalizados para o debate que querem travar.
A ocupação não é ato de delinquência, trata-se, meramente, da forma encontrada pelos alunos para expressar publicamente o conflito que existe entre os que querem democratizar a Universidade e os que se opõem a isso em nome de interesses que não precisam revelar quando se ancoram na cômoda defesa da “lei”.
São Paulo, 30 de outubro de 2011.
09/11/2011
Livro: Histórias Paralelas - 50 anos de música brasileira
Na cadência de tantos sons
Diário do Nordeste - 06 de novembro de 2011
CARLOS AUGUSTO VIANA
Com o subtítulo "50 anos de música brasileira", esse livro, ricamente ilustrado, percorre cinco décadas da produção musical brasileira, entrelaçando tendências, registrando inovações e releituras, isto é, compondo um painel múltiplo que dá corpo ao que, hoje, se inscreve como nossa criação musical, da bossa nova à expressão da contemporaneidade. Tudo registrado com precisão histórica
Trata-se de uma edição bilíngue (Português/Inglês), preparada com muito cuidado, visando, antes de tudo, a que o leitor possa, por meio da precisão do texto, da elegância de seu estilo, e por sugestivas fotografias, palmilhar as pautas do nosso cancioneiro.
Na introdução, deparamos o LP "Elis", datado de 1966, em cujas faixas estavam compositores, beirando os 25 anos de idade, e que, hoje, são incontestáveis criadores: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque, Marcos e Paulo Sérgio Vale, Milton Nascimento, além de Francis Hime e Vinícius de Moraes.
Trilhando linhas evolutivas e linhas paralelas, o autor aponta a bossa nova como sendo, à época, a única música jovem do mundo não contaminada pelo rock: "É bom lembrar que quando Orfeu da Conceição subiu ao palco do Teatro Municipal, em 1956, a música popular mundial havia sucumbido a Elvis Presley e à linhagem que mais tarde se chamaria música pop". No Brasil, entretanto, um veio da música popular se manteve vivo e genuíno, "tendo como responsáveis justamente jovens cantores e compositores que buscavam a herança deixada pela bossa nova e por todo o período clássico da música brasileira", norteado pelas nossas grandes fontes: Noel Rosa, Pixinguinha e Ary Barroso.
Na sequência da evolução de nossa música, o primeiro grande momento de fôlego reside no capítulo "O samba: da resistência à reconquista", onde se destacam as figuras de Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho e Paulo César Pinheiro; mostra que foi no "Zicartola" que Elizeth Cardoso, sendo produzida por Hermínio Belo de Carvalho, definiu todo o repertório de seu revolucionário disco "Elizeth sob o morro", em que, pela primeira vez, o Brasil ouviu o singularíssimo violão de Nélson Cavaquinho. No encerramento desse estudo, entram os nomes de Beth Carvalho, de Martinho da Vila e João Nogueira.
No capítulo "A MPB: a arte de fazer canções", sabemos que, oficialmente, a MPB nasceu na noite de 6 de abril de 1965, na emissora de TV Excelsior, em Ipanema, no Rio de Janeiro: "Assim como a bossa nova - que possivelmente nasceu na estreia da peça Orfeu da Conceição", a MPB nasceu no Opinião ou nos afro-sambas de Baden Powell e de Vinícius de Moraes". Mas, a sua versão clássica - afirma o autor - plenamente reconhecida e reconhecível, surgiria quando Elis Regina inflamou a plateia cantando a música "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.
O movimento tropicalista é um capítulo à parte. O autor o vê como sendo mais do que um acontecimento o florescer de uma ideia, isto é, seria, por assim dizer, também, uma releitura de alguns aspectos da primeira fase modernista, em especial no diz respeito à defesa de uma arte inspirada na cultura brasileira, num novo antropofagismo. A canção "Alegria, alegria", quase uma paródia de "A banda", de Chico Buarque, traz um processo de colagem, como numa criação cubo-futurista; desse modo, Caetano Veloso traça, sob a forma de um caleidoscópios, as diversas facetas de um cotidiano marcado, sobretudo, por uma busca incansável de novos modos de expressão, sem, no entanto, implicar uma luta entre o presente sonhador e um passado sólido.
Em "Jovem Guarda, novelas e o Brega", o autor justifica como um programa de TV passa por um processo de mitificação, apontando, para isso, três motivos: o permanente sucesso pessoal de Roberto Carlos, a adoção que recebeu dos tropicalistas como um dos ícones da música popular até então desprezada pela elite do pensamento, e, por fim, a introdução do Brasil na esfera do rock. E, embora pouca produção da Jovem Guarda haja sobrevivido, a sua influência foi marcante, principalmente porque, considera à época brega pelos intelectuais, é, hoje, uma das trilhas sonoras de nossa elite - quase unanimidade.
O Pessoal do Ceará ganha também destaque, com a presença de Fagner, Belchior e Ednardo, a reprodução das letras de "Mucuripe" (Fagner/Belchior) e de "Terral" (Ednardo), além de uma referência ao disco "Alucinação", com certeza a obra mais revolucionária de Belchior. Bem, o livro é um abundante acervo sobre nossa música, nele desfilam os nossos mais importantes compositores e cantores vários.
Trata-se de uma edição bilíngue (Português/Inglês), preparada com muito cuidado, visando, antes de tudo, a que o leitor possa, por meio da precisão do texto, da elegância de seu estilo, e por sugestivas fotografias, palmilhar as pautas do nosso cancioneiro.
Na introdução, deparamos o LP "Elis", datado de 1966, em cujas faixas estavam compositores, beirando os 25 anos de idade, e que, hoje, são incontestáveis criadores: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque, Marcos e Paulo Sérgio Vale, Milton Nascimento, além de Francis Hime e Vinícius de Moraes.
Trilhando linhas evolutivas e linhas paralelas, o autor aponta a bossa nova como sendo, à época, a única música jovem do mundo não contaminada pelo rock: "É bom lembrar que quando Orfeu da Conceição subiu ao palco do Teatro Municipal, em 1956, a música popular mundial havia sucumbido a Elvis Presley e à linhagem que mais tarde se chamaria música pop". No Brasil, entretanto, um veio da música popular se manteve vivo e genuíno, "tendo como responsáveis justamente jovens cantores e compositores que buscavam a herança deixada pela bossa nova e por todo o período clássico da música brasileira", norteado pelas nossas grandes fontes: Noel Rosa, Pixinguinha e Ary Barroso.
Na sequência da evolução de nossa música, o primeiro grande momento de fôlego reside no capítulo "O samba: da resistência à reconquista", onde se destacam as figuras de Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho e Paulo César Pinheiro; mostra que foi no "Zicartola" que Elizeth Cardoso, sendo produzida por Hermínio Belo de Carvalho, definiu todo o repertório de seu revolucionário disco "Elizeth sob o morro", em que, pela primeira vez, o Brasil ouviu o singularíssimo violão de Nélson Cavaquinho. No encerramento desse estudo, entram os nomes de Beth Carvalho, de Martinho da Vila e João Nogueira.
No capítulo "A MPB: a arte de fazer canções", sabemos que, oficialmente, a MPB nasceu na noite de 6 de abril de 1965, na emissora de TV Excelsior, em Ipanema, no Rio de Janeiro: "Assim como a bossa nova - que possivelmente nasceu na estreia da peça Orfeu da Conceição", a MPB nasceu no Opinião ou nos afro-sambas de Baden Powell e de Vinícius de Moraes". Mas, a sua versão clássica - afirma o autor - plenamente reconhecida e reconhecível, surgiria quando Elis Regina inflamou a plateia cantando a música "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.
O movimento tropicalista é um capítulo à parte. O autor o vê como sendo mais do que um acontecimento o florescer de uma ideia, isto é, seria, por assim dizer, também, uma releitura de alguns aspectos da primeira fase modernista, em especial no diz respeito à defesa de uma arte inspirada na cultura brasileira, num novo antropofagismo. A canção "Alegria, alegria", quase uma paródia de "A banda", de Chico Buarque, traz um processo de colagem, como numa criação cubo-futurista; desse modo, Caetano Veloso traça, sob a forma de um caleidoscópios, as diversas facetas de um cotidiano marcado, sobretudo, por uma busca incansável de novos modos de expressão, sem, no entanto, implicar uma luta entre o presente sonhador e um passado sólido.
Em "Jovem Guarda, novelas e o Brega", o autor justifica como um programa de TV passa por um processo de mitificação, apontando, para isso, três motivos: o permanente sucesso pessoal de Roberto Carlos, a adoção que recebeu dos tropicalistas como um dos ícones da música popular até então desprezada pela elite do pensamento, e, por fim, a introdução do Brasil na esfera do rock. E, embora pouca produção da Jovem Guarda haja sobrevivido, a sua influência foi marcante, principalmente porque, considera à época brega pelos intelectuais, é, hoje, uma das trilhas sonoras de nossa elite - quase unanimidade.
O Pessoal do Ceará ganha também destaque, com a presença de Fagner, Belchior e Ednardo, a reprodução das letras de "Mucuripe" (Fagner/Belchior) e de "Terral" (Ednardo), além de uma referência ao disco "Alucinação", com certeza a obra mais revolucionária de Belchior. Bem, o livro é um abundante acervo sobre nossa música, nele desfilam os nossos mais importantes compositores e cantores vários.
Música
Histórias Paralelas Hugo Sukman
Casa da Palavra
2011
264 páginas
Histórias Paralelas Hugo Sukman
Casa da Palavra
2011
264 páginas
R$ 90
08/11/2011
VLT Parangaba/Mucuripe deve custar R$ 205 milhões; licitação será aberta nesta terça
Diário do Nordeste - 07 de novembro de 2011
Diego Lage
Projeto prevê uma estação transversal no bairro Papicu
FOTO: Arquivo
FOTO: Arquivo
O Governo do Estado abre nesta terça-feira (8) a licitação para as obras civis do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) entre a Parangaba e o Mucuripe, em Fortaleza. A intervenção é um ramal do Metrô de Fortaleza e tem em seu roteiro o Aeroporto Internacional Pinto Martins. O investimento é estimado em mais de R$ 200 milhões.
O ramal, em seu projeto, tem 11 estações e uma extensão total de 12,7 quilômetros - são 11,3 km em superfície e mais 1,4 km em elevado entre a Parangaba e a avenida Aguanambi. A obra é uma das principais intervenções do Ceará para a Copa do Mundo.
De acordo com a Secretaria da Infraestrutura (Seinfra), o ramal deve atravessar 22 bairros com uma área de abrangência de 505.162 habitantes e cerca de 90 mil passageiros diariamente. Tambem são contemplados pela via férrea o Porto do Mucuripe, o Terminal Rodoviário Engenheiro João Thomé e o Estádio Castelão.
Investimento superior a R$ 200 milhões
Um investimento de R$ 205,1 milhões é estimado para a obra. Nesta terça-feira as empresas interessadas em participar do processo devem entregar seus documentos e, também, as propostas de preço. Em data posterior as propostas serão abertas.
O Diário do Nordeste Online apurou que 36 empresas já estão qualificadas para participar do processo licitatório. O número de concorrentes pode ser inferior, pois as empresas podem compor consórcios.
Somente com a via permanente o investimento deve girar em torno de R$ 79 milhões, como apurou o Diário do Nordeste Online.
Obra deve ficar pronta em 2013
A licitação para as obras civis do ramal devem se estender até o fim do ano. Na prática as obras devem começar somente no início de 2012, com um prazo de 18 meses para a conclusão. As obras estariam prontas por volta da na metade de 2013 - ano da Copa das Confederações.
"Os serviços deverão ser executados e concluídos dentro o prazo de 18 (dezoito) meses, contados a partir da data de recebimento da primeira ordem de serviço", aponta o edital de licitação.
Ramal também tem viadutos ferroviários
Em seu projeto o ramal Parangaba/Mucuripe prevê, além das estações, viadutos ferroviários sobre as avenidas Raul Barbosa, Pontes Vieira, Antônio Sales e Dom Luiz.
Já as estações são localizadas em Parangaba, Montese, Vila União, Rodoviária, São João do Tauape, Pontes Vieira, Antônio Sales, Papicu, Mucuripe, Serviluz e Praia Mansa.
Ramal se integra com Linha Sul na Parangaba
Na Estação Parangaba o ramal deve se integrar com a Linha Sul do Metrô de Fortaleza - ora em execução. A Linha Sul, por sua vez, liga Pacatuba ao Centro de Fortaleza.
Caixa Econômica deve financiar o projeto
O ramal Parangaba/Mucuripe deve receber R$ 170 milhões por parte da caixa Econômica Federal. Outros R$ 35,1 milhões devem sair do tesouro estadual.
07/11/2011
A Jovem Militância Direitista
Quem são e o que pensam os jovens militantes de direita que fazem USP
Eles são monarquistas, anticomunistas, contrários ao aborto e à homossexualidade, defensores do porte de arma - e alunos de mesma universidade famosa pela sua militância de esquerda. Conheça a União Conservadora Cristã (UCC), o lado direitista da USP
Vida Urbana - Por IGOR RIBEIRO. - 07/11/2011
OS ANTI-MARX Saulo Mega Soares, entre dois jovens conservadores. Eles provocam um novo embate ideológico no meio universitário
Alto, magro, de olhos claros e cabelos cacheados, Arthur Pittarello poderia se orgulhar de sua juventude. Mas o estudante de ciências sociais da USP parece não ligar para a própria idade. “Aí você me pegou. Tenho 22 ou 23…”, diz. Sua hesitação é reveladora: Pittarello é um cara tradicional. Monarquista e religioso, é presidente da União Conservadora Cristã (UCC). A entidade nasceu num ambiente naturalmente hostil: entre os estudantes da USP, famosos por sua histórica militância de esquerda. Mais curioso é que ele sobreviva sem o apadrinhamento de nenhum partido político de centro ou de direita. Mesmo assim, cerca de 20 jovens como Pittarello (23 anos confirmados) integram o UCC.
A entidade surgiu há dois anos para disputar o Diretório Central dos Estudantes da USP. Conseguiu o apoio de 217 pessoas e ficou em sexto lugar. Sem chance de vencer, a chapa chamou a atenção. Em maio, voltou a ser notícia ao participar da Contra-Marcha da Maconha, questionando os argumentos pró-legalização da droga. O episódio rendeu à UCC a pecha de extremadireita, prontamente recusada.
Por saber que defendem ideias controvertidas no âmbito acadêmico, seus integrantes costumam ser avessos à exposição. Relutaram em falar com a reportagem de Época SÃO PAULO. Alguns não quiseram fornecer seus nomes reais e apenas um quis mostrar o rosto: o rapaz em primeiro plano na foto à direita, Saulo Mega Soares, de 21 anos. “Eu era trotskista quando cheguei à faculdade”, diz ele, hoje no quarto ano de Direito. “Estudei e debati muito até perceber que a filosofia marxista é equivocada. O século XX foi a completa negação de tudo o que Marx previu.” Além de ser articulado e denotar erudição, Soares joga futebol e vai à academia. “Além da leitura, gosto muito da atividade física.”
Cada um tem suas razões para estar na entidade. Catarina (nome fictício), de 20 anos, cresceu numa família católica do interior paulista. Tímida, retraída e claudicante nas palavras, ela diz que sempre cultivou um sentimento anticomunista. “A busca pela verdade é o que me move”, afirma ela, que também estuda na faculdade do Largo São Francisco. Seu colega, Pedro Henrique Barreto, de 21 anos, entrou em depressão ao procurar respostas sobre a questão do aborto – diz que a reflexão político-religiosa o salvou. “Somos movidos pela castidade. Deus nos mandou ser assim”, diz o estudante, que namora uma conservadora como ele. Sexo, só depois do casamento. Barreto gosta de jazz, música clássica e do filme Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles. Catarina prefere rock, como AC/DC e Titãs. Um de seus filmes preferidos é Tropa de elite, o mesmo de Soares, que ouve Skank e Jota Quest.
De gostos diferentes, se irmanam na ideologia. São todos monarquistas, reprovam o aborto e a homossexualidade – e defendem o porte de arma. Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, eles preenchem uma lacuna real na militância universitária. “Os grupos de esquerda atuais não defendem mais objetivos ideológicos, como justiça social”, diz o professor de ética e filosofia política da USP. Isso favoreceria a defesa de causas opostas.
“Acho saudável que exista alguma reação como a UCC”, diz o filósofo Olavo de Carvalho. Espécie de guru do conservadorismo brasileiro, ele lamenta a ausência de oposição ao que chama de “hegemonia da esquerda”. Mas acha que a militância jovem não terá força fora das universidades. “Politicamente, não vai dar em nada”, diz. Segundo Carvalho, figuras como o falecido doutor Enéas Carneiro e o deputado Jair Bolsonaro são expoentes “patológicos e excêntricos”. Para ele, não existe uma direita intelectualmente respeitável no Brasil.
Pittarello concorda: “A situação política de hoje não dá espaço a um conservador. Não temos um projeto de poder”. É nesse vazio que a UCC se mobiliza para estudar, discutir e promover eventos sobre os temas que defende, seja na USP, seja na Unicamp, onde também conta com adeptos. “Não vamos nos reduzir à mera divulgação política”, diz Barreto. “A gente também quer estudar, quer saber, quer aprender.”
AS BASES DE UM CONSERVADOR
O filósofo Olavo de Carvalho elaborou a lista ao lado para ajudar a diferenciar conservadores de revolucionários
O filósofo Olavo de Carvalho elaborou a lista ao lado para ajudar a diferenciar conservadores de revolucionários
TRADIÇÃO
O conservador preza a experiência passada como forma de pensar o presente, em contra-ponto ao revolucionário, que entende o presente com base num futuro hipotético
O conservador preza a experiência passada como forma de pensar o presente, em contra-ponto ao revolucionário, que entende o presente com base num futuro hipotético
PROVIDÊNCIA
O povo não deve sofrer os efeitos das escolhas de gerações anteriores. Os políticos têm o direito de experimentar e aprender com a experiência, mas não o de testar práticas arriscadas de longo prazo
O povo não deve sofrer os efeitos das escolhas de gerações anteriores. Os políticos têm o direito de experimentar e aprender com a experiência, mas não o de testar práticas arriscadas de longo prazo
REFORMA
Governos não têm o direito de fazer algo que os seguintes não possam desfazer. Nenhuma ordem social do passado foi tão ruim a ponto de bloquear a mera possibilidade de uma nova ordem
Governos não têm o direito de fazer algo que os seguintes não possam desfazer. Nenhuma ordem social do passado foi tão ruim a ponto de bloquear a mera possibilidade de uma nova ordem
DEMOCRACIA
A revogabilidade das medidas de governo é um princípio democrático essencial, mas propostas revolucionárias tendem a concentrar o poder e a excluir para sempre as propostas alternativas
A revogabilidade das medidas de governo é um princípio democrático essencial, mas propostas revolucionárias tendem a concentrar o poder e a excluir para sempre as propostas alternativas
EQUILÍBRIO
A mentalidade revolucionária não é um traço permanente da natureza humana e deve ser erradicada como condição essencial para a sobrevivência da liberdade no mundo
A mentalidade revolucionária não é um traço permanente da natureza humana e deve ser erradicada como condição essencial para a sobrevivência da liberdade no mundo
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