29/08/2011

Não sejas o de hoje - Cecília Meireles



Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens.

Não queiras ser o de amanhã.

Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue.
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
É a eternidade.
És tu.

23/08/2011

Crônica: Como Desmascarar o Choro Falso

Fabrício Carpinejar

Arte de Edward Munch


O choro é uma arte. Uma obra-prima. Uma Pietà de Michelangelo. Diante dela, nossos olhos se umedecem na hora, o batimento dispara e até nossa boca se ajoelha pedindo perdão pela nossa indiferença nas sinaleiras.

Mas, como toda escultura, é cheia de réplicas e falsificações.

E dá para entender o motivo. Desde bebê aprendemos a fazer manha para ganhar as coisas. Perdemos a autenticidade das lágrimas. A cobiça nos distanciou da verdadeira dor. Assim que descobrimos que os pais não aguentam choro por muito tempo, abusamos do recurso cênico e banalizamos o berro. Nossos sofrimentos são, na maior parte das vezes, reclamações. Os gritos não passam de resmungos. Poderiam ser evitados. Têm uma clara natureza forçada.

Desejando prevenir a população da ação dos impostores, estabeleço mandamentos para identificar e reprimir o estelionato emocional:

& O choro depende de soluço. É um engasgo precioso. Choro sem soluço é poço sem roldana. Trata-se de um motor respiratório para atravessar o vale de lágrimas. Numa visão gramática da tristeza, o soluço é a vírgula e o gemido é o ponto final. São pausas fundamentais que garantem o suspense: parece que o sofredor vai falar, mas ele se cala.

& O choro sincero é um miado. Não conseguiremos decifrar o que a pessoa disse. As palavras são completamente ilegíveis.

& O rosto ficará vermelho, inchado, como um ataque de abelhas-africanas.

& O sofredor não vai encarar o outro de modo nenhum, não se chora de cabeça levantada, isso é coisa de novela e de colírio. O choroso estará acovardado, de boca aberta, já que não consegue respirar.

& Não acredite no tipo que bate a porta do quarto para chorar, está chamando atenção, é carência, não choro, o choroso real desmorona onde estiver. Não é possível guardar o choro, criar um fundo de investimento de dor. O choro é pontual, surge no meio do trabalho, no meio da aula, relâmpago incontrolável.

& Em contato com o travesseiro, a choradeira irá atravessar a fronha e o lençol. Se não mofar o colchão, não é choro.

& No momento em que o homem chora, se a voz vem grossa, ele está fingindo: no choro, a voz sempre é fina, distorcida, de gás hélio.

& Mulher nunca chora sem estar pintada. É regra básica, para borrar feio e oferecer espetáculo. Mulher chorando de cara limpa é farsa.

& Se você usa lenço ou papel higiênico para limpar o nariz, está mentindo: quem sofre mesmo assoa o ranho na manga da camisa, e não se importa com os botões.

& O choro é como orgasmo. Não admite discurso depois. Aquele que aproveita o choro para passar sermão é apenas um chantagista.

Pelas costas, Estadão “crava” espada em Dilma

Rodrigo Vianna


por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador
A foto está na página A-7, na edição impressa do Estadão. Dilma surge levemente arqueada, e a espada de um cadete parece trespassar o corpo da presidenta. Abaixo da foto, o título “Honras Militares” – e um texto anódino, sobre a participação de Dilma numa cerimônia militar.

Faço a descrição minuciosa da foto porque a reprodução acima é de má qualidade, tive que fotografar a página do jornal. Até porque, estranhamente, a foto sumiu da edição digital. Se alguém encontrar, por favor, me avise.

O editor do Estadão deve ter achado genial mostrar a presidenta como se estivese sendo golpeada pelas costas. É a chamada metáfora de imagem. Mas, expliquem-me: qual a metáfora nesse caso? O que a foto tinha a ver com a solenidade de que fala o jornal? Há, no meio militar, quem queira golpear Dilma pelas costas? O jornal sabe e não vai contar?

Ou, quem sabe, a turma do “Estadão” tenha achado graça em “brincar” com a imagem. No mínimo, um tremendo mau gosto com uma mulher que já passou por tortura na mão de militares, e hoje é a presidenta de todos os brasileiros.
Sintomático que a foto não apareça ao lado da mesma notícia na edição digital. Alguém deve ter pensado melhor e concluído: isso não vai pegar bem.
Por isso tudo, sou levado a pensar que Freud talvez explique a escolha da foto: a mão militar, na foto, cumpre a função de eliminar a presidenta. E, com isso, talvez agrade a parcela dos leitores do jornal. Passeando pelo site do Estadão, é comum ver a presidenta chamada de “terrorista”.

' Não saiam do armário '

Carlos Apolinário é uma espécie de Harvey Milk às avessas. Ao contrário do político americano, que nos anos 1970 instigou a comunidade gay de São Francisco a assumir a homossexualidade como parte de um processo de afirmação (e sobrevivência), o vereador paulistano, eleito pelo DEM, acredita que a aceitação, nos novos tempos, passa pelo caminho inverso: “Se o cara não quiser sair do armário, deixa ele no armário, pô. Hoje em dia a pessoa vai para a televisão e só falta dizer: ‘não basta ser gay, tem que participar’”.
O vereador Carlos Apolinário, que propõs o Dia do Orgulho Hétero em SP

A tese é rabiscada ao telefone poucas horas após a Câmara Municipal aprovar, na terça-feira 2, um projeto de lei de sua autoria que institui, em São Paulo, o Dia do Orgulho Heterossexual. O “Dia” ainda não tem data nem comemoração previstas, diferentemente do que ocorre com a versão homossexual do evento. Mas o vereador garante que, ao aprovar a lei, conseguirá instituir também um dia de reflexões sobre o que chama de “excesso de privilégios” acumulado pela comunidade gay na maior cidade do País. Ele explica: “hoje em dia, se você anda na rua e arruma briga, você sai e xinga. Você não quer saber se o sujeito é hétero ou gay. Você só quer xingar. Se você xingar um hétero, tudo bem. Mas se der o azar e xingar um gay, você vai ser chamado de homofóbico e vai causar uma baita confusão”.
Mas não é apenas a ausência do direito de xingar democraticamente as pessoas na rua que tem tirado o orgulho de ser hétero do vereador. Outro perigo, aponta ele, é um dono de um estabelecimento censurar manifestações públicas de afeto entre “bigodudos” e ter de aturar um “beijaço” de 20 bigodudos, no mesmo local, como protesto, no dia seguinte. “Eu sofro também discriminação por ser evangélico. Imagina se o cara brigar comigo porque sou religioso e, no dia seguinte, eu levar um grupo para fazer um culto lá no restaurante do cara”.

O perseguido Apolinário lembra que até tinha vergonha de usar a Bíblia quando criança, época em que os colegas o chamavam de “crente da bunda quente”, mas que a discriminação foi diminuindo conforme descobria que havia também jogadores de futebol e políticos que pertenciam à mesma igreja, no caso a Assembleia de Deus, que frequenta há 52 anos. Ele garante, porém, que nunca teve a orelha arrancada ao ser reconhecido como um ser diferente ao abraçar o filho em público. Até porque, conforme conta, até mesmo à mulher, com quem é casado há 38 anos, as manifestações públicas são restritas – do mesmo jeito que não admite casais extravagantes na piscina de seu prédio, também evita promover cenas picantes em público. “Não preciso fazer demonstrações de amor à sociedade”.
O excesso de afeto é justamente o problema – já que os “animais” que provocam agressões pelas ruas sempre existirão, segundo Apolinário. “O que faz um gay ser discriminado? Você põe um camarada gay para trabalhar no gabinete do vereador. Chega lá, ele faz uma voz que não é a dele, anda de um jeito que não é o jeito dele andar…É que nem um cara que corta o cabelo igual ao do Ronaldinho: ele passa e você olha. Ou uma mulher que sai com o busto de fora, ou bota minissaia. A pessoa vai olhar e fazer comentário. Mas se o gay tem um procedimento normal, fala e anda do jeito dele, ninguém vai estranhar”, afirma.
 

Outro resultado da chamada migração dos armários para a rua, na visão de Apolinário, é que hoje em dia os gays estão de tal forma protegidos que não podem sequer ser demitidos sem justa causa sem que o empregador seja acusado de homofobia. Se bater num carro de gay, então, já era: é cadeia na certa. “Hoje o gay é sempre vítima de tudo”, costuma repetir o vereador.

“Na Paulista, as grandes manifestações estão proibidas por causa dos hospitais. Mandaram a festa da CUT e a Marcha para Jesus para outros lugares. Mas a Parada Gay pode. Por que só ela? É um privilégio inaceitável. Por que não fazem a Parada em Interlagos?”, sugere. Outro exemplo do excesso de privilégios, lembra Apolinário, é que durante as festas sindicais de 1º de Maio não há distribuição gratuita de camisinha; já na Parada Gay, elas são jogadas às centenas graças à ajuda do contribuinte. “Eles estão querendo defender direitos como o de adotar criança ou trabalhar na polícia ou estão só ‘pensando naquilo’?”, questiona ele, que não esquece o “agarra-agarra” no metrô a caminho da festa popular.
Um pouco envergonhado, ele exemplifica a que ponto a situação privilegiada da comunidade gay chegou: “Aqui na Câmara, tinha um projeto em que o funcionário público municipal poderia colocar o companheiro gay no plano de saúde como dependente. Eu fiz um projeto igualzinho ao dele, mas em vez de colocar companheiro gay, indiquei que poderia ser um dependente, que não precisava ser gay. Poderia ser a mãe, o pai, o irmão, a avó, um amigo dele. Imagina o seguinte: você é hétero e eu sou hétero. Suponha que vamos morar na mesma casa: nós compramos a casa, cada um paga a metade, todas as nossas despesas a gente divide. A única coisa que a gente não faz é sexo. Aí nós não temos direito nenhum”.
Apesar da irritação, Apolinário garante que, diferentemente do colega de política, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), não tem problemas em conviver com a comunidade gay. Se os filhos seguissem esse caminho, garante, ele pediria apenas que eles mantivessem a discrição.

Prova de que não tem “nada contra o ser humano homossexual”, diz o vereador, é que até mesmo o cabelereiro, “alto, bonitão, de barba e um desperdício”, que corta seus cabelos pretos, sempre entupidos de gel, é gay. “Meu cabelereiro é gay. Tem até um camarada que ele chama de marido. É um cara normal: eu beijo ele, ele me beija. Não tenho nenhum problema. Na minha campanha, meu maquiador era um gay. E já tive dois funcionários gays que eram chefes do telemarketing”, gaba-se.

16/08/2011

Prêmio SEFIN promove palestra com Luis Nassif



A Prefeitura de Fortaleza, através da Secretaria de Finanças (SEFIN), realiza nesta quinta-feira (18) a palestra Prêmio SEFIN – O novo Nordeste e o Brasil, ministrada pelo jornalista Luis Nassif. O evento acontecerá no auditório do Ministério da Fazenda (Rua Barão de Aracati, 909), a partir das 8 horas. Para participar, é necessário realizar inscrição através do site www.sefin.fortaleza.ce.gov.br/premiosefin. As inscrições são gratuitas.

O evento é voltado para jornalistas, editores, assessores de imprensa, publicitários e estudantes de comunicação. Porém, qualquer pessoa interessada pode participar. Esta ação faz parte da estratégia  da Secretaria de Finanças para estimular à discussão das finanças públicas do município e contribuir para que o profissional de comunicação, especialmente o jornalista, possa compreender melhor sobre questões ligadas à economia e outros temas da área.

A palestra Prêmio SEFIN – O novo Nordeste e o Brasil conta com o patrocínio da Cagece e apoio técnico do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Lincoln Institute of Land Policy e Escola de Administração Fazendária (ESAF). 


SERVIÇO
Palestra Prêmio SEFIN
Data: 18 de agosto de 2011.
Horário: 8h às 12h
Local: Auditório do Ministério da Fazenda - Receita Federal ( Rua Barão de Aracati, 909)
Informações: (85) 3452.1481

Saiba Mais
Luis Nassif foi o introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Comentarista econômico da TV Cultura. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003 e 2005, em eleição direta da categoria. Membro do Conselho do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Conselho de Economia da FIESP. Autor de "O Jornalismo dos anos 90", e "Menino de São Benedito", Finalista do Prêmio Jabuti de 2003 na Categoria Contos/Crônica. Em 1995 lançou o CD "Roda de Choro", solando bandolim, semi-finalista do Prêmio Sharp de Música Instrumental.

12/08/2011

Semana Claridade - O Ser de Luz


12 de agosto de 1942. Nascia Clara Francisca Gonçalves. A guerreira mestiça da música brasileira. Com voz poderosa e cheia de mistérios, Clara encantou o país com seus penduricalhos e seu jeito peculiar de se apresentar. Trazia consigo uma aura que irradiava todos os lugares por onde passava. Era sem dúvida um ser de luz.

Cantou o Brasil, suas misturas e deu seu recado. Era, de fato, cantora para todas as interpretações. Amante da Portela, seu o último samba gravado (1981) não poderia ser outro: Portela na Avenida de seu amado Paulo César Pinheiro.

Com essa música encerramos a semana Claridade, que comemora o aniversário de nascimento da bela cigana e inaugura as postagens do Blog Por2. Esperamos tenham gostado do especial preparado por nós, onde tentamos mostrar um pouco da trajetória da cantora.

Por fim, uma homenagem do saudoso João Nogueira, amigo e compadre de Clara, cantando a música feita em homenagem a ela após sua partida para o outro plano. Que a imagem e as músicas desse Ser de Luz permaneçam sempre vivas em nossa na mente e coração.

Eparrêi Oiá!




Estádio do Morumbi lotado.

Ser de Luz (Joao Nogueira / Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

11/08/2011

Semana Claridade - Clássicos

Em 1974 Clara já era sucesso absoluto. Estava estourada com o clássico Conto de Areia, de Romildo Bastos e Toninho. No mesmo ano, conhecera o compositor Paulo César Pinheiro. Foram apresentados por Mauro Duarte. Na ocasião, Paulo convidou Clara para defender a música Menino Deus no II Segundo Encontro Nacional do Compositor do Samba. Nesta altura, ela já estava apaixonada. Casou-se meses depois com o compositor.

Com Claridade (1975), entrara para a história como a primeira mulher a vender 500 mil cópias de um disco no Brasil. Repertório primoroso, o LP trazia grandes sucessos que hoje podem ser considerados clássicos da cantora. Entre eles: A Deusa dos Orixás de Romildo e Toninho e O mar serenou de Candeia.








O fenômeno de vendas não parou por ai. O mesmo se repetiu em 1977 com Forças da Natureza, 1978 com Guerreira e 1979 com o álbum Esperança. No final da década de 70 Clara começava a se politizar e participar de shows de protestos organizados por Chico Buarque e outros artistas. No início de 1980, já com repertório de Brasil Mestiço fechado, ela pede a Chico uma música que ele havia lhe prometido. Chico a presenteia com Morena de Angola.  




Em 1982, antes de lançar o último álbum Nação, Clara é convidada pela Fundação Min-On para apresentar-se no Japão. A Fundação, que já havia levado Eliseth Cardoso e Jair Rodrigues para apresentar-se, tinha o objetivo de promover intercâmbios culturais entre artistas de todo o mundo. Clara aceitou. Em suas apresentações, deu à “Manhã de Carnaval” uma das melhores e mais emocionantes interpretações.




Ao retornar ao Brasil, lançou Nação, seu último grande sucesso que chegava ao recorde de 600 mil cópias vendidas. Neste álbum, destaque para Ijexá de Edil Pacheco.



Bibliografia e Fotos do Livro Clara Nunes -Guerreira da Utopia de Vagner Fernandes (Ediouro, 2007)

Valorize seus Direitos

O acesso dos alunos à Universidade de Fortaleza (UNIFOR) está ficando cada vez mais caótico. A quantidade de vagas no estacionamento da universidade já  não comporta a demanda de carros que diariamente freqüentam o campus.

Nesse semestre a situação se agravou ainda mais. As obras da Washington Soares, em frente ao Centro de Convenções, têm aumentado o transtorno. O caos começa a partir das 17 horas quando carros em alta velocidade chegam em busca vagas à todo custo. Improvisam e dificultam o fluxo de outros carros.

Estudantes brincam com a situação. Chamam o lugar de "terra sem lei" e clamam: "salve-se quem puder!".

De fato, hoje a Unifor conta com 6 mil vagas de estacionamento, de acordo com o site da universidade. Um número que  até poderia ser questionado. Mas não vem ao caso.A questão que queremos destacar é a garantia mínima de organização dos espaços de acesso à univesidade, que se mantém estática diante do caos que se instaura todos os dias.

Pior que isso: a parte de universitários que nada faz para garantir o mínimo de condição do seu acesso. Estou falando de muitos estudantes de Direito, por exemplo, que jogam seus carros em locais inapropriados após passarem quase 1 hora esperando. Agem como se nada tivesse acontecido, como se tudo aquilo fosse normal. Não bastasse isso, ainda seguem normalmente, com seu vade mecum debaixo do braço, vangloriando-se pela  sagacidade de ter encontrado uma vaga. Enquanto isso, muitos outros ficam a deriva nesse caos diário.

De qualquer forma, não podia ser diferente, afinal, a ausência de reivindicação já é velha conhecida da classe média e alta frequentadora da Unifor. É uma classe que prefere calar, fingir que não viu ou até mesmo acreditar que "as coisas são assim mesmo".

Por isso, nesse dia do estudante, espero mais voz, ação e reação à situações de descaso como essa que todos os dias estamos condenados a passar. Chega de tanta passividade diante de um serviço que é caro e está sendo negado. Silenciar é não valorizar seu dinheiro e muito menos seu direito.



10/08/2011

Semana Claridade - A deusa dos orixás

 
Depois de estourar com o “álbum da virada” em 1971, Clara Nunes disparou. Passou a emplacar um sucesso atrás do outro. No ano seguinte, o novo disco Clara, Clarice, Clara levara a cantora ao top 10 das rádios. “O caminho mais certo: aquilo que o povo canta”, destacou a manchete do jornal O Globo de 9 de março de 1972. Entre as músicas estavam “Ilu ayê”, samba que garantiu à Portela o terceiro lugar no carnaval de daquele ano e “Tributo aos Orixás”, marca registrada de Clara.

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Diante do sucesso repentino, Clara passou a acreditar que tamanho destaque só poderia ser resultado de uma força espiritual que a protegia e impulsionava para os holofotes do sucesso. Nos centros que freqüentava os búzios só apontavam para Clara como filha de Ogum com Iansã. Boa espiritualista, ela não só acreditava como também seguia os passos orientados por seus orixás.

No mesmo ano, uma confusão de maternidade. Pai Edu de Olinda, que Clara conheceu através de uma amiga numa apresentação em Recife, jogou os búzios para a cantora e deu Oxum na cabeça de Clara. De acordo com o pai-de-santo Iansã estava fora de cogitação. Clara encantou-se tanto com Pai Edu que chegou a se consagrar filha de Oxum em cerimônia na águas do Rio Capibaribe. Um prato cheio para a imprensa.

Se era Iansã ou Oxum, não importa. No mesmo ano Clara foi convidada para fazer parte do show Moça, Poeta e Violão com ninguém menos que Vinícius de Moraes e Toquinho. O trio rendeu tanto que em 1973 Clara entrava novamente para gravar outro LP, desta vez Brasília.

E lá se foi Clara, como uma verdadeira resistência cultural.


Tributo aos Orixás (Mauro Duarte / Noca / Rubem Tavares)



Homenagem à Olinda, Recife e Pai Edu

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 Bibliografia e Fotos do Livro Clara Nunes -Guerreira da Utopia de Vagner Fernandes (Ediouro, 2007).

O Dia do Medo Macho

Eliane Brum, Jornalista e Escritora


Quando li nos jornais que a Câmara de Vereadores de São Paulo tinha aprovado um projeto de lei criando o “Dia do Orgulho Hétero”, minha primeira reação foi de indignação. Como cidadã que tem crises de bronquite por causa da poluição da cidade, em que ônibus, carros e caminhões circulam deixando nuvens de fumaça com monóxido de carbono, entre outras porcarias, sem que ninguém pareça fiscalizar. Como cidadã que tropeça nos buracos de calçadas quando anda a pé e já sofreu trancos na coluna quando anda de carro por causa da péssima pavimentação das ruas. Como cidadã que passa horas todo dia num trânsito empacado e é empurrada e machucada em trens e ônibus lotados porque o transporte público é insuficiente e ineficiente e a população que dele depende é tratada como gado. Como cidadã que testemunha a péssima qualidade da educação pública e do atendimento nos postos de saúde. Como cidadã que sofre nos períodos de seca com a qualidade do ar, mas teme a chuva porque ano após ano os mais pobres morrem soterrados ou têm suas casas destruídas por causa do descaso do poder público e de obras adiadas. Como cidadã que vive tudo isso na cidade mais rica de um país que é a sétima economia do mundo, ao ler a notícia minha primeira reação foi de indignação.

Afinal, será que os vereadores que deveriam honrar o voto da população não têm problemas reais para discutir no seu tempo muito bem pago com dinheiro público? Mais ainda ao saber que o autor do projeto, o vereador Carlos Apolinario (DEM) apresentou a proposta em 2005 e só conseguiu aprová-la, em primeira votação, no ano de 2007. Botou de novo a proposta em discussão em junho deste ano e, desde então, segundo a imprensa paulistana, estava emperrando a análise de outros projetos para, como chegou a ser dito, “vencer pelo cansaço”. 

Quem é Carlos Apolinario, o homem que está tão preocupado com os gays? Como lembrou Fernando de Barros e Silva, colunista da Folha de S.Paulo, Apolinario é um adepto do troca-troca, pelo menos na política: “Já esteve no PMDB, passou por um tal de PGT, frequentou o PDT e hoje se abriga no DEM”. Mas, pelo empenho demonstrado, parece que aprovar o “Dia do Orgulho Hétero” era uma questão de convicção e de fidelidade para o vereador. E o projeto foi aprovado por 31 de 55 vereadores que só estão lá porque seus eleitores pensaram que fariam um bom trabalho. 

Vereador Carlos Apolinario (DEM)

Datas como o “Dia do Orgulho Gay” ou o “Dia da Mulher” ou o “Dia da Consciência Negra” fazem parte da luta pelos direitos básicos de parcelas da população que historicamente sofreram – e ainda sofrem – as consequências da discriminação e do preconceito por aquilo que são. Os gays, por exemplo, contra os quais o “Dia do Orgulho Hétero” se opõe, têm sofrido diariamente por séculos e continuam a ter ainda hoje sua vida ameaçada mesmo em cidades como São Paulo, em que os casos de homofobia aparecem com frequência alarmante nas manchetes da imprensa. Dezenas de pessoas são assassinadas por ano no Brasil por causa de sua orientação sexual. E, em julho, um homem teve parte de sua orelha decepada no interior de São Paulo ao abraçar seu filho porque foram “confundidos” com um casal homossexual – como se isso justificasse a violência. 

A homofobia é um problema sério, que tem ameaçado a vida de cidadãos honestos, pagadores de seus impostos, que com seu trabalho ajudam a manter São Paulo e o Brasil funcionando. E a homofobia merece a preocupação dos vereadores de São Paulo. Em vez de se preocupar com isso, o que eles fazem? Aprovam uma lei que só vai acirrar a violência. 

Em seu site oficial, Carlos Apolinario, que se autointitula “o vereador das mãos limpas”, discorre sobre “heterofobia” e “ditadura gay”. E assim justifica seu projeto: “Na verdade, meu projeto de lei que cria o Dia do Orgulho Hétero não significa um ataque à figura humana dos gays, que eu respeito. Meu objetivo é combater os excessos e privilégios praticados pelos gays”. 

De fato, como todos sabemos, na vida real não há notícia de nenhum heterossexual sendo espancado por gays na Avenida Paulista ou discriminado na escola, no trabalho e em espaços públicos, como acontece com os homossexuais. Não há notícia de nenhum heterossexual ouvindo piadas nem risinhos por onde passa. Logo, o “Dia do Orgulho Hétero” pode ser interpretado como, no mínimo, uma provocação vulgar. Mas com consequências nefastas, na medida em que a homofobia tem causado a morte de seres humanos. 

Como os heterossexuais nunca tiveram seus direitos nem sua vida ameaçados por causa de sua orientação sexual, não há justificativa para uma data como esta ser aprovada pela Câmara e fazer parte do calendário oficial de São Paulo. Como disse Pedro Estevam Serrano, professor de direito constitucional da PUC-SP: “Constitucional é (a lei). Mas, legítima no sentido humano, não é. Não é uma atitude de paz, é uma atitude beligerante”. 

Por tudo isso, minha primeira reação foi de indignação. E, como cidadã, é indignada que devo me manter, já que a lei foi criada e aprovada por homens e mulheres públicos para ter repercussão e consequências públicas sobre a vida dos milhões de moradores de São Paulo. E com ecos no país e fora dele. 

Mas, é sempre bom a gente dar a volta, e tentar compreender porque homens como Carlos Apolinario e os outros 30 que votaram a favor de seu projeto tiveram a atitude que tiveram. Sempre vale a pena vestir a pele do outro, ainda que em casos como este seja uma tarefa e tanto. A pergunta que me fiz foi a seguinte: “Por que homens e mulheres heterossexuais, que nunca tiveram sua orientação sexual questionada ou sofreram qualquer discriminação por causa dela, se sentem tão ameaçados pela homossexualidade do outro?”. 

E segui com questões que me permitissem alcançar Carlos Apolinario e os outros 30: “Se eu me considero heterossexual e estou em paz com minha orientação sexual, por que vou me incomodar com a do outro? Por que preciso criar uma lei que se oponha ao modo de ser do outro, se ele e o mundo inteiro respeitam o meu modo de ser? Por que me sinto ameaçado por uma expressão da sexualidade que é pessoal apenas porque é diferente da minha?”. Por quê?
Em geral, a violência, seja ela física ou psíquica, é uma reação à percepção de ameaça. Você reage para se defender. Sente-se inseguro, arma-se (com pistolas, palavras ou leis) e reage com violência porque não consegue lidar de uma forma mais sofisticada com aquilo que interpreta como uma agressão. Se, na vida pública, não há nenhuma ameaça contra os heterossexuais sob nenhum ponto de vista, logo, não é aí que está o nó da questão. Portanto, é legítimo pensar que a ameaça possa ser uma percepção de foro íntimo para Carlos Apolinario e os outros 30. E, por dificuldades de lidar com essa questão no âmbito pessoal e privado, ela acabou se manifestando em fórum indevido, consumindo dinheiro público e acirrando problemas coletivos numa cidade que tem sido palco de crimes movidos pela homofobia. 

Com isso não quero reforçar o clichê de que quem se sente incomodado com os gays pode estar com sua homossexualidade escondida no armário. Mas lembrar o que a necessidade de criar o “Dia do Orgulho Hétero” só desvela: a sexualidade é um território pantanoso e, para cada homem e mulher é pantanoso de uma maneira diversa. Não sei que tipo de perturbação moveu cada um dos vereadores que aprovaram a lei – e suas pulsões só acabaram por dizer respeito a mim e a todos os cidadãos de São Paulo porque eles fizeram dela algo público – fizeram dela uma lei. 

Carlos Apolinario e os outros 30 não merecem o nosso escárnio, mas sim a nossa compaixão. Estes muitos homens e algumas mulheres precisam de ajuda, não de condenação. Preocupada com essa constatação, fui conferir seus rendimentos e verifiquei que um vereador de São Paulo recebe, por mês, R$ 15.033 de salário, além de R$ 16.359 de verba de gabinete para despesas variadas. Conclusão: dá bem para pagar uma terapia, dá não? Eles serão mais felizes e, mais bem resolvidos, poderão até se dedicar aos problemas reais de São Paulo. Nós todos, por razões humanitárias e de cidadania, agradecemos.

09/08/2011

Semana Claridade - Nasce Clara Mestiça

Em 1971 Clara lançou o álbum que marcou a virada da sua carreira. Após ter flertado com a Jovem Guarda e participado de alguns Festivais de Música da época, Clara Nunes resolveu reinventar seu estilo. Embalada pelos sons dos atabaques dos terreiros de umbanda que freqüentava e as melodias dos bons sambistas da época, Clara promoveu a mudança que seria sua marca registrada.

Produzida por Adelzon Alves, apresentador de programa de rádio com quem teve um romance, Clara mudou as vestimentas, passou a usar patuás e pulseiras, cortou o cabelo e incorporou a nova cantora. Tarefa fácil para ela que sempre teve uma espiritualidade aguçada e aberta para as mais diversas possibilidades.

Além disso, foi através de Adelzon que Clara passou a freqüentar os mais animados quintais de samba do Rio de Janeiro, percorreu todas as quadras de escolas de samba e teve a oportunidade de conhecer grandes nomes como Cartola, Paulo da Portela e Candeia. Aqui também começava seu amor pelo samba e pela Portela.

O álbum da virada, batizado com o próprio nome da cantora, vendeu cerca de 24 mil cópias, de acordo com dados da gravadora divulgados no livro Clara Nunes – Guerreira da Utopia de Vagner Fernandes.

No repertório, o carro-chefe foi “Ê Baiana” (Miguel Pancrácio, Ênio Santos  Ribeiro, Baianinho e Fabrício da Silva) que pode ser considerado o primeiro grande sucesso da cantora. Nascia aqui, Clara Mestiça.





Regresso, de Candeia (1971). Álbum Clara Nunes






"Clara era um caldeirão espiritual" (Fernandes, p119)

 Bibliografia e Fotos do Livro Clara Nunes -Guerreira da Utopia de Vagner Fernandes (Ediouro, 2007).

Campanha Mulheres e Direitos

Com peças enfocadas em homens, mulheres em situação de violência e populações do Norte e Nordeste do Brasil, a campanha valoriza a contribuição da Lei Maria da Penha e da rede de serviços de atendimento às mulheres em situação de violência.


Semana Claridade - O flerte com a Jovem Guarda


Mesmo depois de conseguir emplacar o samba “Você passa eu acho graça”, Clara insistia em flertar com a Jovem Guarda. Acreditava que na turma do iê-iê-iê teria mais projeção no gosto popular. Se por um lado, Clara deu algum reforço para a Jovem Guarda, por outro, não havia espaço para ela ali. Especialmente porque o movimento já contava com representantes femininas de peso como Wanderléa, Rosemary e outras.

Mesmo assim, Clara ainda gravou algumas músicas no melhor estilo Jovem Guarda, com direito a acompanhamento orquestrado e tudo mais. Nesta época, final da década de 60, ela aparecia com cabelos longos e presos no alto, roupas soltas e adereços com pingentes pendurados até o umbigo.

Para relembrar esse período na trajetória de Clara, nada mais justo que a música Gente Boa, de William Prado, gravada por Clara em 1969.



08/08/2011

Instituto Justiça Fiscal - Bom exemplo de Porto Alegre

"Contribuir para o aperfeiçoamento do sistema fiscal de forma a transformá-lo em um instrumento capaz de reduzir as desigualdades sociais", este é um dos objetivos do do Instituto Justiça Fiscal que será lançado hoje em Porto alegre. A iniciativa é louvável, principalmente porque parte de um grupo formado pela sociedade civil organizada e representantes de entidades de classe e movimentos sociais. 

Experiências como estas bem que poderiam ser aplicadas à Fortaleza, principalmente porque a cidade tem se destacado por algumas ações ligadas à transparência por parte da atual administração pública. No âmbito do Estado, conta com um grupo de educação fiscal bem estruturado e com expertise para capacitar os mais diversos públicos.

Portanto, eis um ambiente favorável para a criação de grupos dispostos a fiscalizar o poder público e garantir o controle social dos dos gastos.

A vitória da "patinha feia"

Às vésperas de o PT decidir se acaba ou não com as prévias, a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, mostra como a democracia partidária pode trazer resultados positivos


Alan Rodrigues

Recursos públicos aqueceram a economia de Fortaleza
e a renda média da população cresceu mais de 50%

A prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, sempre gostou de uma boa briga. Seu embate mais célebre foi travado com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que queria porque queria impedir que ela se candidatasse a prefeita da capital do Ceará no agora distante ano de 2004. Às vésperas da eleição municipal daquele ano, Lula, José Genoino, José Dirceu e a maioria da cúpula petista tentaram intervir no diretório local para que o partido não lançasse candidatura própria. Na época, os “chefões do PT” pretendiam empurrar goela abaixo do partido como candidato ideal o nome do senador Inácio Arruda, do PCdoB. Lula perdeu. Os militantes optaram pela candidatura da petista e, mesmo sem o apoio do presidente da República, Luizianne venceu as eleições. “Eu era a patinha feia da história”, diverte-se hoje a prefeita, que há muito fez as pazes com Lula e boa parte da cúpula petista.

Agora, às vésperas do fim de seu segundo mandato como prefeita de Fortaleza, Luizianne se prepara para um novo embate com Lula. O tema, mais uma vez, envolve o poder de decisão dos diretórios em tempos de eleição. O ex-presidente, assim como parte importante dos caciques petistas, quer acabar com as prévias para a escolha de candidatos, pondo fim a uma tradição democrática do PT. Luizianne vai para o congresso nacional do PT, no início de setembro, decidida a lutar contra a proposta. E levará como armas principais para essa briga a sua própria história e o que vem ocorrendo neste momento no diretório municipal do PT de Fortaleza. Lá, mais de um ano antes das eleições, 13 petistas não esperaram a decisão do congresso nacional do partido e lançaram suas pré-candidaturas à sucessão de Luizianne.

A profusão de pré-candidatos em Fortaleza está diretamente ligada ao bom momento que vive a administração municipal. A cada ano, a gestão da prefeita Luizianne coleciona o aumento de expressivos indicadores de desenvolvimento sociais e econômicos. Dona da quinta maior população entre as capitais do País, com quase 2,5 milhões de habitantes, Fortaleza foi a capital nordestina que mais reduziu a pobreza em sua periferia, entre 2001 e 2008, segundo pesquisa do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPS/FGV). Traduzindo, a renda média dos moradores da periferia da capital cearense aumentou 52,25%, passando de R$ 204,34 para R$ 311,11, um crescimento cinco vezes maior do que o registrado em Salvador ou São Paulo. “Os números revelam uma maior inserção da população no mercado formal de trabalho, consequência de uma política educacional em conjunto com um resultado macroeconômico mais equilibrado”, avalia o economista Mercelo Neri, autor do estudo.

Desde que assumiu a prefeitura, Luizianne tem dado uma atenção especial às populações mais carentes, o que lhe tem rendido duras críticas. “A classe média odeia a prefeita, mas os pobres da cidade representam quase 70% do município”, afirma o cientista político Francisco Moreira, da Universidade de Fortaleza (Unifor). “O importante é que aumentamos em muito nossa receita, sem aumentar impostos, e estamos conseguindo investir na cidade”, diz Luizianne. Os investimentos da prefeitura em 2010 renderam ao município o posto mais alto do ranking das capitais do Norte e do Nordeste na geração de empregos formais e a quarta colocação entre as cidade brasileiras, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Pelos dados do MTE, a capital cearense abriu 54.669 novos postos de trabalho com carteira assinada, superando Salvador (BA), com 37.786, e quase o dobro de João Pessoa (PB), que contabilizou 28.112 novas vagas de emprego no último ano. “Programas sociais, alinhados a uma política de mão de obra formal, geram uma capacidade de compra que movimenta toda uma economia”, explica o economista Roberto Smith, ex-pre sidente do Banco do Nordeste (BNB).

Segundo os números da prefeitura, nos sete anos à frente do governo, a gestão de Luizianne reduziu em 52% a mortalidade infantil – crianças mortas antes de completar um ano de vida. Em 2004, morriam 21,2 crianças por 100 mil nascidos e no último ano esse número despencou para 12. Para complementar o saldo positivo da administração, Fortaleza é a terceira maior rede pública municipal de educação, com 240 mil alunos matriculados, só perdendo para São Paulo e Belo Horizonte. Agora resta saber se todos esses números ajudarão Luizianne na batalha que ela vai voltar a travar com a cúpula do PT.  

Isto É, 6 de agosto de 2011

07/08/2011

Semana Claridade

Se estivesse viva, Clara Nunes completaria na próxima sexta-feira (12/08) 69 anos de idade. Mineira, nascida em Paraopeba, ganhou destaque como cantora no início da década de 60 após conquistar o terceiro lugar no concurso A voz de Ouro do ABC que lhe rendeu um contrato com a gravadora Odeon.

Teve um início de carreira conturbado e marcado por alguns fracassos. Primeiro a vontade da gravadora em fazer dela uma cantora romântica. Segundo, a passagem pela Jovem Guarda que, de fato, não abriria espaço para ela. Melhor. Principalmente porque a turma do iê iê iê logo perderia espaço para um movimento muito mais intelectualizado e político, o Tropicalismo. Por último, o lançamento primeiro long-play intitulado “A voz adorável de Clara Nunes”, um grande fiasco logo no início da sua carreira com apenas 3.100 cópias vendidas.

Por sorte, ela queria mostrar que era cantora de qualquer interpretação. Não tinha medo de arriscar. Como boa brasileira, ela tentou, tentou, tentou até que conseguiu. Tornou-se uma das maiores cantoras que o país já teve. Dona de uma voz imponente e uma simpatia carismática, Clara se reinventou, criou estilo próprio, cantou a mistura que é o Brasil, invocou orixás e encantou com sambas que se eternizaram.

Durante toda esta semana, para homenagear Clara Nunes, vamos mostrar um pouco de sua trajetória musical, as parcerias e histórias que fizeram de Clara uma verdadeira representante do nosso povo, da nossa cultura, nosso sincretismo religioso e da nossa música. Para iniciar, começamos com "Você passa eu acho graça" (1968).



Depois do fracasso mercadológico de seu primeiro LP, Clara consegue finalmente projeção com a música “Você passa eu acho graça” de Carlos Imperial (que não simpatizava com ela) e Ataulfo Alves (que só contribuiu com uma palavra na letra da música). Aqui, ela dava o primeiro passo para sua curta e triunfal trajetória musical.

Como desafogar e tornar o trânsito de Fortaleza mais pacífico?

Com mais carros nas ruas e várias obras em andamento, circular em Fortaleza é um desafio diário, exigindo paciência e educação no trânsito de pedestres e motoristas




João Alfredo Telles Melo
Vereador (PSOL) e professor de Direito Ambiental


É preciso vontade política para não se submeter à ditadura do automóvel individual, a partir de um enfoque sistêmico que aposte em outros modais, como o transporte público e a bicicleta. De pouco adianta uma passagem barata, se a qualidade do transporte público é tão ruim, que dificilmente os que têm automóveis migrariam para os ônibus. Conforto e pontualidade são essenciais. O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) - desde que retire carros da rua e não pessoas – pode ser uma solução, mas o BRT (o sistema do transporte rápido de ônibus, adotado em Curitiba) pode ser mais barato e eficaz. Muitos jovens poderiam usar a bicicleta, desde que houvesse mais segurança e infraestrutura (ciclovias, ciclofaixas, bicicletários) para os ciclistas. Por último, uma política de educação para o trânsito que faça compreender que pedestres e ciclistas têm que ser respeitados e protegidos por todos.


Cezário Oliveira
Diretor do Sindicato dos Taxistas


Tratamento diferenciado por parte do Governo Federal, investindo pesado e acelerando as obras do metrô de Fortaleza, não só a linha sul, como também as linhas projetadas, de modo a atender todas as regiões da cidade. Interligar linhas de ônibus ao metrô para evitar os grandes percursos de ônibus em todas as direções da cidade, o que complica ainda mais o trânsito. Em pontos de congestionamentos na Capital, como a avenida Raul Barbosa com avenida Murilo Borges, avenida Dedé Brasil com Expedicionários e avenida José Bastos com Prudente Brasil, deveriam ser colocadas alças e construídos viadutos corrigindo os cortes do projeto original. É preciso também melhorar a malha viária de Fortaleza, aplicando sinalização horizontal eficiente.


Antonio Paulo Cavalcante
Arquiteto e urbanista, prof. do Depto de Engenharia de Transportes da UFC


Os congestionamentos em Fortaleza são reflexo de anos de deficiência no controle urbano, tanto na gestão do uso e ocupação do solo quanto do espaço de circulação. A 'oferta' de espaço para circular (as vias) concentra em 7% das ruas da cidade cerca de 40% dos fluxos diários 'casa-trabalho-casa'. O uso do transporte público pelas classes C e D é totalmente descartado pelas classes A e B, que elevou-se em números absolutos e, com a estabilidade econômica do País, aumentaram o número de veículos da cidade. A abordagem do problema precisa ser sistêmica 'entre' os atores-gestores em um órgão supra-institucional, nos moldes da gestão consorciada, para o controle da frota, separando o tráfego de passagem de ônibus dos carros de passeio; a educação para o trânsito e os ajustes de novas conexões e operação de linhas de transporte público (redefinir rotas, reduzindo custos nos 'entre-picos' e aumentando veículos de alta capacidade nos picos).


Apolônio Aguiar
Diretor da empresa AD2M que lançou a campanha “Eu faço um trânsito leve”


Para além das responsabilidades dos gestores públicos, dos fabricantes de veículos e dos engenheiros especializados, um poder capaz de transformar o trânsito, tão valioso quanto negligenciado, reside na dimensão individual. O trânsito te faz sofrer? Irrita, estressa, atrasa? Dê o troco mudando de atitude, exercitando a paciência, dando um bom exemplo. Antecipe sua saída para não precisar correr, organize caronas, experimente novos caminhos, horários e meios de transporte. Você não pode viver sem o trânsito, então lide com ele de forma suave e contagie quem vive ao seu redor. Pare de culpar o outro e respeite as regras, esteja atento, cometa a grande ousadia de ser gentil e elegante nesta selva de picapes e buzinas. No final, você fica uma pessoa melhor. E o trânsito fica mais leve.


Márlia Paiva
Socióloga e membro do movimento Mobilidade Humana


Penso que, de imediato, só uma nova atitude do condutor já teria grande potencial de impactar na situação de enorme desconforto de nosso trânsito. Aumentar a sensação de presença de órgãos fiscalizadores poderia ser um grande passo que implicaria em mudanças profundas de hábitos. Contudo, para se mudar gestos é necessário mais do que aplicação de sanções. Afinal, precisamos quebrar profundamente a reprodução social, ou seja, a manutenção de certos hábitos. Isto poderia nos tornar menos transgressores, menos interessados em manter distância dos outros habitantes da cidade e, assim, mais apropriados dos espaços públicos, fato que implicaria na redução dos diversos tipos de violência. A reflexão sobre a nossa qualidade de vida que implica em tudo, inclusive na maneira que usamos a cidade e tratamos aqueles que dividem este espaço conosco, deveria tornar-se um exercício diário, antes mesmo que os viadutos sejam erguidos.


José Valteclar Borges Vieira
Presidente do Sindicato dos Mototaxistas de Fortaleza



Para desafogar o trânsito em Fortaleza são necessárias medidas como a construção de transporte sobre trilhos e corredores de ônibus. É preciso também que seja feito um material educativo com o levantamento das ruas paralelas às avenidas mais congestionadas e que estas sejam sinalizadas. Tal material deve ser divulgado para a população. Deve ser feita a mudança da sinalização em localidades como o Bairro de Fátima, acrescentando “Siga à direita”, por exemplo, na avenida Borges de Melo com a rua Deputado Osvaldo Stuart, na avenida Aguanambi com Soriano Albuquerque. O semáforo do viaduto da avenida Treze de Maio deveria ser retirado, e nos sinais de pedestres deveriam ser construídas passarelas.

Via jornal O Povo 

03/08/2011

A Corte de Haia não perde por esperar

Saiu no Globo, pág. 9:


Aos 63 anos, ela poderia permanecer no cargo até 2018, mas quer ser do Tribunal Penal Internacional, órgão das Nações Unidas que julga os crimes contra a Humanidade.

Em 2008 ela tentou duas vezes ser Juíza de Corte Internacional.

Num caso foi preterida por um Juiz brasileiro.

Noutro, não passou no exame.






Data vênia, a Ministra não seria exatamente a juíza ideal para uma corte que julga crimes contra a Humanidade, como os de tortura.

Ela votou com a maioria – 5 a 2 – do Supremo que preferiu anistiar a Lei da Anistia do Brasil.
Vai ser complicado ela defender a punição ao torturador de Ruanda ou da Sérvia depois de perdoar o coronel Ustra.
Quem confirmou ao Globo a aposentadoria precoce da Ministra foi Ministro Marco Aurélio Mello, com base em relato do presidente do STF, Cezar Peluso.
Viva o Brasil !
A aposentadoria, porém, tem um ingrediente político incontornável.
A Presidenta terá a oportunidade de emparedar o ex-Supremo Presidente Supremo do Supremo, Gilmar Dantas (*).
Celso de Mello foi nomeado por Sarney.
É conservador, mas não se pode dizer que vote conservadoramente, sempre.
Marco Aurélio de Mello foi nomeado por Collor.
Marco Aurélio de Mello é conservador, vota quase sempre com as causas conservadoras, mas é imprevisível.
Foi ele, por exemplo, foi o único a considerar que Gilmar Dantas (*) tinha que deixar Daniel Dantas na cadeia, diante da nova prova oferecida pelo corajoso Juiz Fausto De Sanctis, o ato de passar bola, exibido em horário nobre no jornal nacional.
Gilmar Dantas (*) é a mais amarga herança que o Farol de Alexandria deixou.
Na extrema direita do espectro político, com votos sempre previsíveis – o pior defeito de um juiz, a previsibilidade, segundo o mestre Joaquim Falcão – permanece, pétreo, Gilmar Dantas (*).
Todos os outros ministros foram nomeados pelo Nunca Dantes e pela Presidenta.
A substituição da Ministra Ellen Gracie poderá significar, na prática, o emparedamento político de Gilmar Dantas (*), aquele a quem o Padim Pade Cerra, no historico telefonema capturado pela a Folha(**) chamou de “meu Presidente !”.
Como na decisão sobre Cesare Battisti: Gilmar Dantas, por 9 horas e 73 minutos leu um voto que tinha uma única serventia – firmar-se na extrema direita e afrontar o Presidente Lula.
A Presidenta pode acentuar o isolamento político de Gilmar Dantas.
E, aí, das duas uma: ou ele se torna mais irrelevante do que é; ou vai embora.
Sobre ir embora, ainda.
Cabe acrescentar ao currículo da Ministra aposentante Ellen Gracie que ela deu contribuição notável à História da Magistratura Universal.
Ela se recusava a abrir os discos rígidos encontrados com Daniel Dantas com um argumento notável: Daniel Dantas não é Daniel Dantas, mas Daniel Dantas !
A Corte de Haia não perde por esperar !


Paulo Henrique Amorim