Na cadência de tantos sons
Diário do Nordeste - 06 de novembro de 2011
CARLOS AUGUSTO VIANA
Com o subtítulo "50 anos de música brasileira", esse livro, ricamente ilustrado, percorre cinco décadas da produção musical brasileira, entrelaçando tendências, registrando inovações e releituras, isto é, compondo um painel múltiplo que dá corpo ao que, hoje, se inscreve como nossa criação musical, da bossa nova à expressão da contemporaneidade. Tudo registrado com precisão histórica
Trata-se de uma edição bilíngue (Português/Inglês), preparada com muito cuidado, visando, antes de tudo, a que o leitor possa, por meio da precisão do texto, da elegância de seu estilo, e por sugestivas fotografias, palmilhar as pautas do nosso cancioneiro.
Na introdução, deparamos o LP "Elis", datado de 1966, em cujas faixas estavam compositores, beirando os 25 anos de idade, e que, hoje, são incontestáveis criadores: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque, Marcos e Paulo Sérgio Vale, Milton Nascimento, além de Francis Hime e Vinícius de Moraes.
Trilhando linhas evolutivas e linhas paralelas, o autor aponta a bossa nova como sendo, à época, a única música jovem do mundo não contaminada pelo rock: "É bom lembrar que quando Orfeu da Conceição subiu ao palco do Teatro Municipal, em 1956, a música popular mundial havia sucumbido a Elvis Presley e à linhagem que mais tarde se chamaria música pop". No Brasil, entretanto, um veio da música popular se manteve vivo e genuíno, "tendo como responsáveis justamente jovens cantores e compositores que buscavam a herança deixada pela bossa nova e por todo o período clássico da música brasileira", norteado pelas nossas grandes fontes: Noel Rosa, Pixinguinha e Ary Barroso.
Na sequência da evolução de nossa música, o primeiro grande momento de fôlego reside no capítulo "O samba: da resistência à reconquista", onde se destacam as figuras de Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho e Paulo César Pinheiro; mostra que foi no "Zicartola" que Elizeth Cardoso, sendo produzida por Hermínio Belo de Carvalho, definiu todo o repertório de seu revolucionário disco "Elizeth sob o morro", em que, pela primeira vez, o Brasil ouviu o singularíssimo violão de Nélson Cavaquinho. No encerramento desse estudo, entram os nomes de Beth Carvalho, de Martinho da Vila e João Nogueira.
No capítulo "A MPB: a arte de fazer canções", sabemos que, oficialmente, a MPB nasceu na noite de 6 de abril de 1965, na emissora de TV Excelsior, em Ipanema, no Rio de Janeiro: "Assim como a bossa nova - que possivelmente nasceu na estreia da peça Orfeu da Conceição", a MPB nasceu no Opinião ou nos afro-sambas de Baden Powell e de Vinícius de Moraes". Mas, a sua versão clássica - afirma o autor - plenamente reconhecida e reconhecível, surgiria quando Elis Regina inflamou a plateia cantando a música "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.
O movimento tropicalista é um capítulo à parte. O autor o vê como sendo mais do que um acontecimento o florescer de uma ideia, isto é, seria, por assim dizer, também, uma releitura de alguns aspectos da primeira fase modernista, em especial no diz respeito à defesa de uma arte inspirada na cultura brasileira, num novo antropofagismo. A canção "Alegria, alegria", quase uma paródia de "A banda", de Chico Buarque, traz um processo de colagem, como numa criação cubo-futurista; desse modo, Caetano Veloso traça, sob a forma de um caleidoscópios, as diversas facetas de um cotidiano marcado, sobretudo, por uma busca incansável de novos modos de expressão, sem, no entanto, implicar uma luta entre o presente sonhador e um passado sólido.
Em "Jovem Guarda, novelas e o Brega", o autor justifica como um programa de TV passa por um processo de mitificação, apontando, para isso, três motivos: o permanente sucesso pessoal de Roberto Carlos, a adoção que recebeu dos tropicalistas como um dos ícones da música popular até então desprezada pela elite do pensamento, e, por fim, a introdução do Brasil na esfera do rock. E, embora pouca produção da Jovem Guarda haja sobrevivido, a sua influência foi marcante, principalmente porque, considera à época brega pelos intelectuais, é, hoje, uma das trilhas sonoras de nossa elite - quase unanimidade.
O Pessoal do Ceará ganha também destaque, com a presença de Fagner, Belchior e Ednardo, a reprodução das letras de "Mucuripe" (Fagner/Belchior) e de "Terral" (Ednardo), além de uma referência ao disco "Alucinação", com certeza a obra mais revolucionária de Belchior. Bem, o livro é um abundante acervo sobre nossa música, nele desfilam os nossos mais importantes compositores e cantores vários.
Trata-se de uma edição bilíngue (Português/Inglês), preparada com muito cuidado, visando, antes de tudo, a que o leitor possa, por meio da precisão do texto, da elegância de seu estilo, e por sugestivas fotografias, palmilhar as pautas do nosso cancioneiro.
Na introdução, deparamos o LP "Elis", datado de 1966, em cujas faixas estavam compositores, beirando os 25 anos de idade, e que, hoje, são incontestáveis criadores: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque, Marcos e Paulo Sérgio Vale, Milton Nascimento, além de Francis Hime e Vinícius de Moraes.
Trilhando linhas evolutivas e linhas paralelas, o autor aponta a bossa nova como sendo, à época, a única música jovem do mundo não contaminada pelo rock: "É bom lembrar que quando Orfeu da Conceição subiu ao palco do Teatro Municipal, em 1956, a música popular mundial havia sucumbido a Elvis Presley e à linhagem que mais tarde se chamaria música pop". No Brasil, entretanto, um veio da música popular se manteve vivo e genuíno, "tendo como responsáveis justamente jovens cantores e compositores que buscavam a herança deixada pela bossa nova e por todo o período clássico da música brasileira", norteado pelas nossas grandes fontes: Noel Rosa, Pixinguinha e Ary Barroso.
Na sequência da evolução de nossa música, o primeiro grande momento de fôlego reside no capítulo "O samba: da resistência à reconquista", onde se destacam as figuras de Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho e Paulo César Pinheiro; mostra que foi no "Zicartola" que Elizeth Cardoso, sendo produzida por Hermínio Belo de Carvalho, definiu todo o repertório de seu revolucionário disco "Elizeth sob o morro", em que, pela primeira vez, o Brasil ouviu o singularíssimo violão de Nélson Cavaquinho. No encerramento desse estudo, entram os nomes de Beth Carvalho, de Martinho da Vila e João Nogueira.
No capítulo "A MPB: a arte de fazer canções", sabemos que, oficialmente, a MPB nasceu na noite de 6 de abril de 1965, na emissora de TV Excelsior, em Ipanema, no Rio de Janeiro: "Assim como a bossa nova - que possivelmente nasceu na estreia da peça Orfeu da Conceição", a MPB nasceu no Opinião ou nos afro-sambas de Baden Powell e de Vinícius de Moraes". Mas, a sua versão clássica - afirma o autor - plenamente reconhecida e reconhecível, surgiria quando Elis Regina inflamou a plateia cantando a música "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.
O movimento tropicalista é um capítulo à parte. O autor o vê como sendo mais do que um acontecimento o florescer de uma ideia, isto é, seria, por assim dizer, também, uma releitura de alguns aspectos da primeira fase modernista, em especial no diz respeito à defesa de uma arte inspirada na cultura brasileira, num novo antropofagismo. A canção "Alegria, alegria", quase uma paródia de "A banda", de Chico Buarque, traz um processo de colagem, como numa criação cubo-futurista; desse modo, Caetano Veloso traça, sob a forma de um caleidoscópios, as diversas facetas de um cotidiano marcado, sobretudo, por uma busca incansável de novos modos de expressão, sem, no entanto, implicar uma luta entre o presente sonhador e um passado sólido.
Em "Jovem Guarda, novelas e o Brega", o autor justifica como um programa de TV passa por um processo de mitificação, apontando, para isso, três motivos: o permanente sucesso pessoal de Roberto Carlos, a adoção que recebeu dos tropicalistas como um dos ícones da música popular até então desprezada pela elite do pensamento, e, por fim, a introdução do Brasil na esfera do rock. E, embora pouca produção da Jovem Guarda haja sobrevivido, a sua influência foi marcante, principalmente porque, considera à época brega pelos intelectuais, é, hoje, uma das trilhas sonoras de nossa elite - quase unanimidade.
O Pessoal do Ceará ganha também destaque, com a presença de Fagner, Belchior e Ednardo, a reprodução das letras de "Mucuripe" (Fagner/Belchior) e de "Terral" (Ednardo), além de uma referência ao disco "Alucinação", com certeza a obra mais revolucionária de Belchior. Bem, o livro é um abundante acervo sobre nossa música, nele desfilam os nossos mais importantes compositores e cantores vários.
Música
Histórias Paralelas Hugo Sukman
Casa da Palavra
2011
264 páginas
Histórias Paralelas Hugo Sukman
Casa da Palavra
2011
264 páginas
R$ 90

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