30/11/2011

Ser fiel é tão arriscado quanto trair', diz psicanalista

Folha de S. Paulo 

IARA BIDERMAN
EM LONDRES


Autor de livros de sucesso, o psicanalista britânico Adam Phillips atrai leitores fugindo do jargão e tratando de temas como o flerte ou a gentileza, que não costumam receber atenção acadêmica. Suas obras, que combinam psicanálise, filosofia e literatura, são populares, mas ele mesmo, não. Nem e-mail tem. "Restringi ao máximo minhas formas de comunicação." 

Phillips trabalha agora em "Missing Out", um livro sobre coisas que deixamos de lado na vida, a ser lançado no segundo semestre de 2012.
Nesta entrevista feita em seu consultório, em Londres, o autor de "Monogamia" fala sobre riscos da crença no "felizes para sempre".
*
Folha - Em "Monogamia", o senhor diz que não há nada mais escandaloso do que um casamento feliz. Por quê?
Adam Phillips - O que amamos e odiamos num casamento feliz é ver nossos primeiros desejos e medos acontecendo na vida real. Toda criança começa seu desenvolvimento em uma relação monogâmica, com a mãe. E a maioria passa os primeiros 11, 15 anos da vida muito conectada a mãe e ao pai. É uma espécie de monogamia bissexual. Crescer é passar da necessidade de ter só uma pessoa para a necessidade de ter duas (mãe e pai) e a necessidade e a capacidade de se relacionar com várias. 

Daí nossa tendência para a relação monogâmica?
A relação monogâmica é uma memória muito poderosa, é onde começamos. Hoje, muita gente acha difícil manter uma relação monogâmica. Queremos coisas opostas, desejamos coisas proibidas e não sabemos que queremos essas coisas. A cultura torna os desejos muito problemáticos. Muitas pessoas desejam um relacionamento monogâmico, apesar de não serem capazes de lidar com ele. 

Quais são as maiores dificuldades da monogamia?
Os problemas surgem quando as pessoas desejam esse tipo de relacionamento, mas não conseguem realizá-lo. E para quem pensa que é isso o que deseja, mas descobre que não era o que queria. 

A solução, no caso dessas pessoas, é a infidelidade?
Sim. E pode dar certo, mas sempre com conflito. Todo mundo tem ciúme sexual, ninguém suporta dividir seu parceiro de sexo. Alguns dizem que suportam, mas é impossível. Se amamos e desejamos alguém, não queremos dividi-lo com outros. 

Isso tem a ver com a memória da relação entre mãe e bebê?
Sim. E também com o fato de termos necessidades e só determinadas pessoas poderem satisfazê-las. 

Concorda com a tese de que mulheres são por natureza propensas à monogamia?
Acredito na teoria da evolução de Darwin, mas penso que evolução envolve cultura. Há boas explicações em termos de sobrevivência da espécie para sustentar que a mulher quer um homem para a vida toda e o homem deseja mais parceiras, mas não acho que a questão da sobrevivência seja a explicação final. Se fosse, a família nuclear seria a única coisa óbvia a se fazer.
Há diferentes formas de garantir a reprodução da espécie, há muitos jeitos de criarmos as crianças. E muitas formas de fazer sexo, não explicadas por essas teorias. 

O senhor diz que uma sociedade sem a possibilidade de infidelidade seria perigosa...
Seria uma mentira. Colocaria pressão demais nos casais, obrigando um a ser tudo para o outro. É uma demanda moral irrealista. Outro perigo é a monogamia acabar com o desejo e virar uma prisão. 

Acha a sociedade hipócrita em relação à monogamia?
Sim, se ela afirmar que é a única forma boa de relação para todos e o tempo todo.
Mas hoje também há muita gente dizendo que toda relação monogâmica é hipócrita, o que não é verdade. Para alguns, é um desejo genuíno, uma experiência real. 

Tão real quanto traição?
As duas formas são construções sociais. O capitalismo trivializou a paixão, fez com que as pessoas se desiludissem em relação ao amor. Isso leva a pensar que as relações sexuais são algo que se compra no mercado só para levar a vida adiante. O capitalismo tenta dissuadir a criação de vínculos reais. E valoriza demais o prazer. E, para a psicanálise, o prazer é sempre um problema. Qualquer pessoa que te venda um prazer fácil está mentindo. Se o que queremos é prazer profundo, com troca entre pessoas, ele será difícil, cheio de conflitos.
Como lidar com os conflitos?
As crianças deveriam ter aulas na escola sobre frustração, para entender como ela é valiosa. Para adultos, a psicanálise ajuda, é educativa. Os adultos precisam aprender a ser adultos. A maioria age como adolescente, não quer crescer, acredita em fórmulas mágicas de relacionamento. 

A fórmula 'feliz para sempre'?
Claro, é um ideal enganoso. Assim como achar que a pessoa que não se prende a ninguém é livre. São dois ideais igualmente enganadores. 

A monogamia não é também uma forma de evitar riscos?
Pode ser. Correr riscos é muito importante, mas não devemos pressupor que todos os riscos estão na infidelidade. Fidelidade é tão arriscada quanto traição, há muitos riscos na monogamia. 

Quais são eles?
Numa relação monogâmica, cada parceiro sabe e não sabe muitas coisas íntimas sobre o outro. Outro risco é descobrir as limitações do relacionamento humano, o quanto a outra pessoa pode de fato fazer por você. E há o risco de formar uma família. 

Por que não considerar esses riscos tão atraentes quanto os riscos da traição?
Não fomos capazes de produzir relatos excitantes sobre a monogamia. Os bons romances são sobre adultério. Por isso, é difícil articular de forma interessante os prazeres da monogamia. Fica parecendo algo tedioso. Além disso, fomos educados para acreditar que a vitalidade está na heresia. Mas pode haver vitalidade nos dois tipos de relacionamento. O ocidental moderno e culto assume que a vitalidade esta só na heresia. Também está, mas essa não é toda a verdade. 

Do que precisamos, afinal?
De boas histórias que nos ajudem a viver. As únicas verdades úteis são as que nos ajudam a viver. Num relacionamento, o que você precisa é criar uma história na qual se sinta vivo com a outra pessoa. 

Hoje, temos mais opções para criar essa história?
Não sei. A cultura liberal oferece mais escolhas do que havia antes. Mas o capitalismo cria a ilusão de que temos muitas escolhas, quando na verdade temos muito poucas. 

A única escolha é ser feliz ou não. É isso que está sendo vendido como o único programa: quanto prazer você pode ter, quão feliz pode ser. Só que felicidade pode ser como uma droga, nunca satisfaz, você quer sempre mais. Há coisas muito mais importantes que a felicidade: justiça, generosidade, gentileza.

Amy, a garota de Ipanema


10/11/2011

Ninguém está acima da lei. Mas, quem é ninguém? O que é a lei? Qual é a verdade?

por Jorge Luiz Souto Maior, prof. livre docente da Faculdade de Direito da USP


Para deslegitimar o ato de estudantes da USP, que se postaram contra a presença da polícia militar no campus universitário, o governador Geraldo Alckmin sentenciou: “Ninguém está acima da lei”, sugerindo que o ato dos estudantes seria fruto de uma tentativa de obter uma situação especial perante outros cidadãos pelo fato de serem estudantes. Aliás, na sequência, os debates na mídia se voltaram para este aspecto, sendo os estudantes acusados de estarem pretendendo se alijar do império da lei, que a todos atinge.

Muito precisa ser dito a respeito, no entanto.

Em primeiro lugar, a expressão, “Ninguém está acima da lei”, traduz um preceito republicano, pelo qual, historicamente, se fixou a conquista de que o poder pertence ao povo e que, portanto, o governante não detém o poder por si, mas em nome do povo, exercendo-o nos limites por leis, democraticamente, estatuídas. O “Ninguém está acima da lei” é uma conquista do povo em face dos governos autoritários. O “ninguém” da expressão, por conseguinte, é o governante, jamais o povo. Claro que nenhum do povo está acima da lei, mas a expressão não se destina a essa obviedade e sim a consignar algo mais relevante, advindo da luta republicana, isto é, do povo, para evitar a deturpação do poder.

Nesse sentido, não é dado ao governante usar o preceito contra atos de manifestação popular, pois é desses atos que se constroem, democraticamente, os valores que vão se expressar nas leis que limitarão, na sequencia, os atos dos governantes.

Dito de forma mais clara, a utilização do argumento da lei contra os atos populares é um ato anti-republicano, que favorece o disfarce do império da lei, ao desmonte da contestação popular aos valores que estejam abarcados em determinadas leis.

Foi isso, aliás, que se viu recentemente em torno do direito das pessoas se manifestarem, de forma organizada e pacífica, contra a lei que criminaliza o uso da maconha. Todos estão sob o império da lei, mas não pode haver obstáculos institucionalizados para a discussão pública da necessidade ou não de sua alteração.

A lei, portanto, não é ato de poder, não pertence ao governante. A lei deve ser fruto da vontade popular, fixada a partir de experiências democráticas, que tanto se estabelecem pelo meio institucionalizado da representação parlamentar quanto pelo livre pensar e pelas manifestações públicas espontâneas.

E, ademais, qual é a verdade da situação? A grande verdade é que os alunos da USP não estão querendo um tratamento especial diante da lei. Não estão pretendendo uma espécie da vácuo legal, para benefício pessoal. Para ser completamente, claro, não estão querendo fumar maconha no Campus sem serem incomodados pela lei. Querem, isto sim, manifestar, democraticamente, sua contrariedade à presença da PM no Campus universitário, não pelo fato de que a presença da polícia lhes obsta a prática de atos ilícitos, mas porque o ambiente es colar não é, por si, um caso de polícia.

Querem pôr em discussão, ademais, a legitimidade da autorização, dada pela atual Direção da Universidade, em permitir essa presença.
A questão da legitimidade trata-se de outro preceito relevante do Estado de Direito, pois a norma legal, para ser eficaz, precisa ser fixada por quem, efetivamente, tem o poder institucionalizado, pela própria ordem jurídica, para poder fazê-lo e, ainda, exercer esse poder em nome dos preceitos maiores da razão democrática.

Vejamos, alguém pode estar questionando o direito dos alunos de estarem ocupando o prédio da Administração da FFLCH, sob o argumento de que não estão, pela lei, autorizados a tanto. Imaginemos, no entanto, que a Direção da Unidade, tivesse concedido essa autorização. A questão, então, seria saber se quem deu autorização tinha a legitimidade para tanto e mais se os propósitos da autorização estavam, ou não, em conformidade com os preceitos jurídicos voltados à Administração Pública.

Pois bem, o que os alunos querem é discutir se a autorização para a Polícia Militar ocupar os espaços da Universidade foi legítima e quais os propósitos dessa autorização. Diz-se que a presença da Polícia Militar se deu para impedir furtos e, até, assassinatos, o que, infelizmente, foi refletido em fatos recentes no local. Mas, para bem além disso, a presença da Polícia Militar tem servido para inibir os atos democráticos de manifestação, que, ademais, são comuns em ambientes acadêmicos, envoltos em debates políticos e reivindicações estudantis e trabalhistas. Uma Universidade é, antes, um local experimental de manifestações livres de ideias, instrumentalizadas por atos políticos, para que as leis, que servirão à limitação dos atos dos nossos governantes, possam ser analisadas criticamente e aprimoradas por intermédio de práticas verdadeiramente democráticas.

A presença ostensiva da Polícia Militar causa constrangimentos a essas práticas, como, aliás, se verificou, recentemente, com a condução de vários servidores da Universidade à Delegacia de Polícia, em razão da realização de um ato de paralisação de natureza reivindicatória, o que lhes gerou, dentro da lógica de terror instaurada, a abertura de um Inquérito Administrativo que tem por propósito impingir-lhes a pena da perda do emprego por justa causa.

Dir-se-á que no evento que deu origem à manifestação dos alunos houve, de fato, a constatação da prática de um ilícito e que isso justificaria o ato policial. Mas, quantas não foram as abordagens que não geraram a mesma constatação? De todo modo, a questão é que os fins não justificam os meios ainda mais quando os fins vão muito além do que, simplesmente, evitar a prática de furtos, roubos, assassinatos e consumo de drogas no âmbito da Universidade, como se tem verificado em concreto.

Há um enorme “déficit” democrático na Universidade de São Paulo que de um tempo pra cá a comunidade acadêmica, integrada por professores, alunos e servidores, tem pretendido pôr em debate e foi, exatamente, esse avanço dessa experiência reivindicatória que motivou, em ato de represália, patrocinado pelo atual reitor, o advento da polícia militar no campus, sob a falácia da proteção da ordem jurídica.

A ocupação da Administração da FFLCH pelos alunos, ocorrida desde a última quinta-feira, não é um ato isolado, advindo de um fato determinado, fruto da busca frívola de se “fumar maconha” impunemente no campus. Fosse somente isso, o fato não merecia tanta repercussão. Trata-se, isso sim, do fruto da acumulação de experiências democráticas que se vêm intensificando no âmbito da Universidade desde 2005, embora convivendo, é verdade, com o trágico efeito do aumento das estratégias repressoras. Neste instante, o que deve impulsionar a todos, portanto, é a defesa da preservação dos mecanismos de diálogo e das práticas democráticas. Os alunos, ademais, ainda que o ato tenha tido um estopim, estão sendo objetivos em suas reivindicações: contra a precarização dos direitos dos trabalhadores; contra a privatização do ensino público; contra as estruturas de poder arcaicas e autoritárias da Universidade, regrada, ainda, por preceitos fixados na época da ditadura militar; pela realização de uma estatuinte; e contra a presença da Polícia Militar no Campus, que representa uma forma de opressão ao debate.

O ato dos alunos, portanto, é legítimo porque seus objetivos estão em perfeita harmonia com os objetivos traçados pela Constituição da República Federativa do Brasil, que institucionalizou um Estado Democrático de Direito Social e o fato de estarem ocupando um espaço público para tanto serve como demonstração da própria origem do conflito: a falta de espaços institucionalizados para o debate que querem travar.

A ocupação não é ato de delinquência, trata-se, meramente, da forma encontrada pelos alunos para expressar publicamente o conflito que existe entre os que querem democratizar a Universidade e os que se opõem a isso em nome de interesses que não precisam revelar quando se ancoram na cômoda defesa da “lei”.

São Paulo, 30 de outubro de 2011.

09/11/2011

Livro: Histórias Paralelas - 50 anos de música brasileira

Na cadência de tantos sons
Diário do Nordeste - 06 de novembro de 2011

CARLOS AUGUSTO VIANA
 

Com o subtítulo "50 anos de música brasileira", esse livro, ricamente ilustrado, percorre cinco décadas da produção musical brasileira, entrelaçando tendências, registrando inovações e releituras, isto é, compondo um painel múltiplo que dá corpo ao que, hoje, se inscreve como nossa criação musical, da bossa nova à expressão da contemporaneidade. Tudo registrado com precisão histórica
Trata-se de uma edição bilíngue (Português/Inglês), preparada com muito cuidado, visando, antes de tudo, a que o leitor possa, por meio da precisão do texto, da elegância de seu estilo, e por sugestivas fotografias, palmilhar as pautas do nosso cancioneiro.

Na introdução, deparamos o LP "Elis", datado de 1966, em cujas faixas estavam compositores, beirando os 25 anos de idade, e que, hoje, são incontestáveis criadores: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque, Marcos e Paulo Sérgio Vale, Milton Nascimento, além de Francis Hime e Vinícius de Moraes.

Trilhando linhas evolutivas e linhas paralelas, o autor aponta a bossa nova como sendo, à época, a única música jovem do mundo não contaminada pelo rock: "É bom lembrar que quando Orfeu da Conceição subiu ao palco do Teatro Municipal, em 1956, a música popular mundial havia sucumbido a Elvis Presley e à linhagem que mais tarde se chamaria música pop". No Brasil, entretanto, um veio da música popular se manteve vivo e genuíno, "tendo como responsáveis justamente jovens cantores e compositores que buscavam a herança deixada pela bossa nova e por todo o período clássico da música brasileira", norteado pelas nossas grandes fontes: Noel Rosa, Pixinguinha e Ary Barroso.

Na sequência da evolução de nossa música, o primeiro grande momento de fôlego reside no capítulo "O samba: da resistência à reconquista", onde se destacam as figuras de Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho e Paulo César Pinheiro; mostra que foi no "Zicartola" que Elizeth Cardoso, sendo produzida por Hermínio Belo de Carvalho, definiu todo o repertório de seu revolucionário disco "Elizeth sob o morro", em que, pela primeira vez, o Brasil ouviu o singularíssimo violão de Nélson Cavaquinho. No encerramento desse estudo, entram os nomes de Beth Carvalho, de Martinho da Vila e João Nogueira.

No capítulo "A MPB: a arte de fazer canções", sabemos que, oficialmente, a MPB nasceu na noite de 6 de abril de 1965, na emissora de TV Excelsior, em Ipanema, no Rio de Janeiro: "Assim como a bossa nova - que possivelmente nasceu na estreia da peça Orfeu da Conceição", a MPB nasceu no Opinião ou nos afro-sambas de Baden Powell e de Vinícius de Moraes". Mas, a sua versão clássica - afirma o autor - plenamente reconhecida e reconhecível, surgiria quando Elis Regina inflamou a plateia cantando a música "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.

O movimento tropicalista é um capítulo à parte. O autor o vê como sendo mais do que um acontecimento o florescer de uma ideia, isto é, seria, por assim dizer, também, uma releitura de alguns aspectos da primeira fase modernista, em especial no diz respeito à defesa de uma arte inspirada na cultura brasileira, num novo antropofagismo. A canção "Alegria, alegria", quase uma paródia de "A banda", de Chico Buarque, traz um processo de colagem, como numa criação cubo-futurista; desse modo, Caetano Veloso traça, sob a forma de um caleidoscópios, as diversas facetas de um cotidiano marcado, sobretudo, por uma busca incansável de novos modos de expressão, sem, no entanto, implicar uma luta entre o presente sonhador e um passado sólido.

Em "Jovem Guarda, novelas e o Brega", o autor justifica como um programa de TV passa por um processo de mitificação, apontando, para isso, três motivos: o permanente sucesso pessoal de Roberto Carlos, a adoção que recebeu dos tropicalistas como um dos ícones da música popular até então desprezada pela elite do pensamento, e, por fim, a introdução do Brasil na esfera do rock. E, embora pouca produção da Jovem Guarda haja sobrevivido, a sua influência foi marcante, principalmente porque, considera à época brega pelos intelectuais, é, hoje, uma das trilhas sonoras de nossa elite - quase unanimidade.

O Pessoal do Ceará ganha também destaque, com a presença de Fagner, Belchior e Ednardo, a reprodução das letras de "Mucuripe" (Fagner/Belchior) e de "Terral" (Ednardo), além de uma referência ao disco "Alucinação", com certeza a obra mais revolucionária de Belchior. Bem, o livro é um abundante acervo sobre nossa música, nele desfilam os nossos mais importantes compositores e cantores vários.
Música

Histórias Paralelas
Hugo Sukman

Casa da Palavra
2011
264 páginas
R$ 90

08/11/2011

VLT Parangaba/Mucuripe deve custar R$ 205 milhões; licitação será aberta nesta terça

Diário do Nordeste - 07 de novembro de 2011

Diego Lage

Projeto prevê uma estação transversal no bairro Papicu
FOTO: Arquivo

O Governo do Estado abre nesta terça-feira (8) a licitação para as obras civis do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) entre a Parangaba e o Mucuripe, em Fortaleza. A intervenção é um ramal do Metrô de Fortaleza e tem em seu roteiro o Aeroporto Internacional Pinto Martins. O investimento é estimado em mais de R$ 200 milhões.

O ramal, em seu projeto, tem 11 estações e uma extensão total de 12,7 quilômetros - são 11,3 km em superfície e mais 1,4 km em elevado entre a Parangaba e a avenida Aguanambi. A obra é uma das principais intervenções do Ceará para a Copa do Mundo.

De acordo com a Secretaria da Infraestrutura (Seinfra), o ramal deve atravessar 22 bairros com uma área de abrangência de 505.162 habitantes e cerca de 90 mil passageiros diariamente. Tambem são contemplados pela via férrea o Porto do Mucuripe, o Terminal Rodoviário Engenheiro João Thomé e o Estádio Castelão.

Investimento superior a R$ 200 milhões
Um investimento de R$ 205,1 milhões é estimado para a obra. Nesta terça-feira as empresas interessadas em participar do processo devem entregar seus documentos e, também, as propostas de preço. Em data posterior as propostas serão abertas.
O Diário do Nordeste Online apurou que 36 empresas já estão qualificadas para participar do processo licitatório. O número de concorrentes pode ser inferior, pois as empresas podem compor consórcios.
Somente com a via permanente o investimento deve girar em torno de R$ 79 milhões, como apurou o Diário do Nordeste Online.

Obra deve ficar pronta em 2013
A licitação para as obras civis do ramal devem se estender até o fim do ano. Na prática as obras devem começar somente no início de 2012, com um prazo de 18 meses para a conclusão. As obras estariam prontas por volta da na metade de 2013 - ano da Copa das Confederações.
"Os serviços deverão ser executados e concluídos dentro o prazo de 18 (dezoito) meses, contados a partir da data de recebimento da primeira ordem de serviço", aponta o edital de licitação.

Ramal também tem viadutos ferroviários
Em seu projeto o ramal Parangaba/Mucuripe prevê, além das estações, viadutos ferroviários sobre as avenidas Raul Barbosa, Pontes Vieira, Antônio Sales e Dom Luiz.
Já as estações são localizadas em Parangaba, Montese, Vila União, Rodoviária, São João do Tauape, Pontes Vieira, Antônio Sales, Papicu, Mucuripe, Serviluz e Praia Mansa.

Ramal se integra com Linha Sul na Parangaba
Na Estação Parangaba o ramal deve se integrar com a Linha Sul do Metrô de Fortaleza - ora em execução. A Linha Sul, por sua vez, liga Pacatuba ao Centro de Fortaleza.

Caixa Econômica deve financiar o projeto
O ramal Parangaba/Mucuripe deve receber R$ 170 milhões por parte da caixa Econômica Federal. Outros R$ 35,1 milhões devem sair do tesouro estadual.

07/11/2011

A Jovem Militância Direitista

Quem são e o que pensam os jovens militantes de direita que fazem USP

 

Eles são monarquistas, anticomunistas, contrários ao aborto e à homossexualidade, defensores do porte de arma - e alunos de mesma universidade famosa pela sua militância de esquerda. Conheça a União Conservadora Cristã (UCC), o lado direitista da USP

 

 Vida Urbana - Por IGOR RIBEIRO. - 07/11/2011

OS ANTI-MARX Saulo Mega Soares, entre dois jovens conservadores. Eles provocam um novo embate ideológico no meio universitário

Alto, magro, de olhos claros  e cabelos cacheados, Arthur Pittarello poderia se orgulhar de sua juventude. Mas o estudante de ciências sociais da USP parece não ligar para a própria idade. “Aí você me pegou. Tenho 22 ou 23…”, diz. Sua hesitação é reveladora: Pittarello é um cara tradicional. Monarquista e religioso, é presidente da União Conservadora Cristã (UCC). A entidade nasceu num ambiente naturalmente hostil: entre os estudantes da USP, famosos por sua histórica militância de esquerda. Mais curioso é que ele sobreviva sem o apadrinhamento de nenhum partido político de centro ou de direita. Mesmo assim, cerca de 20 jovens como ­Pittarello (23 anos confirmados) integram o UCC.

A entidade surgiu há dois anos para disputar o Diretório Central dos Estudantes da USP. Conseguiu o apoio de 217 pessoas e ficou em sexto lugar. Sem chance de vencer, a chapa chamou a atenção. Em maio, voltou a ser notícia ao participar da Contra-­Marcha da Maconha, questionando os argumentos pró-legalização da droga. O episódio rendeu à UCC a pecha de extremadireita, prontamente recusada.

Por saber que defendem ideias controvertidas no âmbito acadêmico, seus integrantes costumam ser avessos à exposição. Relutaram em falar com a reportagem de Época SÃO PAULO. Alguns não quiseram fornecer seus nomes reais e apenas um quis mostrar o rosto: o rapaz em primeiro plano na foto à direita, Saulo Mega ­Soares, de 21 anos. “Eu era trotskista quando cheguei à faculdade”, diz ele, hoje no quarto ano de Direito. “Estudei e debati muito até perceber que a filosofia marxista é equivocada. O século XX foi a completa negação de tudo o que Marx previu.” Além de ser articulado e denotar erudição, Soares joga futebol e vai à academia. “Além da leitura, gosto muito da atividade física.”

Cada um tem suas razões para estar na entidade. Catarina (nome fictício), de 20 anos, cresceu numa família católica do interior paulista. Tímida, retraída e claudicante nas palavras, ela diz que sempre cultivou um sentimento anticomunista. “A busca pela verdade é o que me move”, afirma ela, que também estuda na faculdade do Largo São Francisco. Seu colega, Pedro Henrique Barreto, de 21 anos, entrou em depressão ao procurar respostas sobre a questão do aborto – diz que a reflexão político-religiosa o salvou. “Somos movidos pela castidade. Deus nos mandou ser assim”, diz o estudante, que namora uma conservadora como ele. Sexo, só depois do casamento. Barreto gosta de jazz, música clássica e do filme Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles. Catarina prefere rock, como AC/DC e Titãs. Um de seus filmes preferidos é Tropa de elite, o mesmo de Soares, que ouve Skank e Jota Quest.
De gostos diferentes, se irmanam na ideologia. São todos monarquistas, reprovam o aborto e a homossexualidade – e defendem o porte de arma. Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, eles preenchem uma lacuna real na militância universitária. “Os grupos de esquerda atuais não defendem mais objetivos ideológicos, como justiça social”, diz o professor de ética e filosofia política da USP. Isso favoreceria a defesa de causas opostas.

“Acho saudável que exista alguma reação como a UCC”, diz o filósofo Olavo de Carvalho. Espécie de guru do conservadorismo brasileiro, ele lamenta a ausência de oposição ao que chama de “hegemonia da esquerda”. Mas acha que a militância jovem não terá força fora das universidades. “Politicamente, não vai dar em nada”, diz. Segundo Carvalho, figuras como o falecido doutor Enéas Carneiro e o deputado Jair Bolsonaro são expoentes “patológicos e excêntricos”. Para ele, não existe uma direita intelectualmente respeitável no Brasil.

Pittarello concorda: “A situação política de hoje não dá espaço a um conservador. Não temos um projeto de poder”. É nesse vazio que a UCC se mobiliza para estudar, discutir e promover eventos sobre os temas que defende, seja na USP, seja na Unicamp, onde também conta com adeptos. “Não vamos nos reduzir à mera divulgação política”, diz Barreto. “A gente também quer estudar, quer saber, quer aprender.”

AS BASES DE UM CONSERVADOR
O filósofo Olavo de Carvalho elaborou a lista ao lado para ajudar a diferenciar conservadores de revolucionários
TRADIÇÃO
O conservador preza a experiência passada como forma de pensar o presente, em contra-ponto ao revolucionário, que entende o presente com base num futuro hipotético
PROVIDÊNCIA
O povo não deve sofrer os efeitos das escolhas de gerações anteriores. Os políticos têm o direito de experimentar e aprender com a experiência, mas não o de testar práticas ­arriscadas de longo prazo
REFORMA
Governos não têm o direito de fazer algo que os seguintes não possam desfazer. Ne­nhuma ordem social do passado foi tão ruim a ponto de bloquear a mera possibilidade de uma nova ordem
DEMOCRACIA
A revogabilidade das medidas de governo é um princípio democrático essencial, mas propostas revolucionárias tendem a concentrar o poder e a excluir para sempre as propostas alternativas
EQUILÍBRIO
A mentalidade revolucionária não é um traço permanente da natureza humana e deve ser erradicada como condição essencial para a sobrevivência da liberdade no mundo

MIOLO DE POTE: Por que jornalistas namoram jornalistas?

Porque eles freqüentam sempre as mesmas redações, os mesmos bares de jornalista, festas de jornalista, eventos para jornalista.

Porque jornalista adora apresentar um amigo jornalista encalhado para uma amiga jornalista encalhada.

Porque pobreza atrai pobreza.

Porque só um jornalista entende as neuras do outro.

Porque só um jornalista suporta o papo de jornalista do outro.

Porque é doce a ilusão de, um dia, se tornar o novo casal 20 do Jornal Nacional.

Porque um não pode rir da desgraça do outro.

Porque, assim como ela, ele gosta de usar camisa xadrez, de ouvir Chico e Caetano, de protestar contra tudo, e essa afinidade toda deve ter algum significado cósmico que unirá estas duas almas jornalísticas para todo o sempre.

Porque o namorado(a) anterior era publicitário(a) e descobriu-se, assim, que tem coisa pior que jornalista neste mundo.

Porque jornalistas são metidos mesmo e querem cruzar apenas entre si para perpetuar a pureza da espécie.

Porque o amor é cego e surdo e estúpido, nunca ouviu isso, não?

Porque é preciso ter alguém para ler os seus textos antes de mandar os frilas para a editora.

Porque, como os dois ralam pra cacete e vivem fazendo plantão, o risco de um cornear o outro é bem menor.

Porque, como os dois ralam pra cacete e vivem fazendo plantão, o risco de um ter que conviver com a família do outro é bem menor.

Porque algum(a) ex de outra profissão deve ter jogado uma praga daquelas bem fortes, do tipo vocês jornalistas se merecem, manja?

Porque essa coisa de ser meio anti-herói e esquisito tem um charme que só outro jornalista é capaz de perceber e deixar-se seduzir.

Porque só jornalistas conseguem envelhecer ao lado de jornalistas.

Porque jornalista é um bicho burro mesmo. Com tanto engenheiro rico e empresária bem-sucedida por aí, vai escolher logo outro jornalista? Faça-me o favor.

Do Blog: http://desilusoesperdidas.blogspot.com/2011/11/por-que-jornalistas-namoram-jornalistas.html

04/11/2011

Almodóvar estréia "A pele que habito"


Antonio Banderas e Elena Anaya em 'A Pele que Habito' - Divulgação

Almodóvar realiza obra-prima intrigante e perturbadora

Em 'A Pele que Habito', que estreia hoje no Brasil, diretor resgata parceria com Antonio Banderas e lhe extrai uma das melhores interpretações de sua carreira


Qual a fronteira que separa um médico de ser um visionário ou um maníaco? O cinema está repleto de exemplos de pessoas que em nome de um suposto avanço para a humanidade tentaram, sem conhecer limites, levar a cabo seus experimentos. Em A Pele que Habito, Pedro Almodóvar, um dos maiores especialistas em criar mulheres descompensadas, concebe o seu "cientista maluco".

A obra, considerada por muitos um filme de gênero - um thriller -, entretanto, deixa evidente que a argamassa do diretor espanhol continua lá, o melodrama. Ele é a base de seu 18º longa que estreia no Brasil nesta sexta-feira, 04.

O Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas) é um cirurgião plástico nascido no Brasil que se tornou um dos mais respeitáveis nomes de sua área. Ledgard está obcecado em criar uma nova pele, uma pele artificial transgênica. Sua cobaia é Vera (Elena Anaya), prisioneira de El Cigarral, o misto de mansão e laboratório do médico.

Vera é monitorada o tempo todo através de câmeras pelo médico e pela governanta Marilia (Marisa Paredes), que criou Ledgard como se seu filho fosse. Qualquer informação mais específica que vá um pouco além disso seria estragar o prazer do espectador de desvendar essa trama de mistérios e sangue.

O sangue, aliás, está mais nas elipses do que é mostrado na tela, como lembra Almodóvar no material de divulgação do filme. O diretor conta que após pensar várias vezes em apresentar A Pele que Habito como um filme mudo e em preto e branco, acabou partindo da premissa de impor uma narrativa rígida, livre da retórica visual e não totalmente sangrenta.

Hitchcock, Buñuel e Georges Franju são influências declaradas por Almodóvar e mitos homenageados em A Pele que Habito, que saiu do último Festival de Cannes sem prêmios e dividindo a crítica. O longa não tem uma Penélope Cruz cantando a música título do filme ou uma Cecilia Roth reencenando um espetáculo que marcou sua trajetória, mas nem por isso deixa de emocionar. Sua emoção é mais calculada, é verdade, e não transborda como na maior parte da filmografia do diretor. "Ele está mais austero", já adiantava Antonio Banderas em entrevistas a respeito de seu "mestre".

E é Banderas um dos melhores presentes que o diretor oferta ao público com seu novo longa. Após 20 anos atuando em vexames como Nunca Fale com Estranhos (1995), Pecado Original (2001) e A Lenda do Zorro (2005), o ator volta a trabalhar com Almodóvar, o responsável por carimbar seu passaporte a Hollywood após ótimas parcerias nos anos 1980 - a última colaboração de ambos foi em Ata-me, de 1990.

Com essa nova produção, Almodóvar nos lembra que Banderas sabe atuar e bem. "Ele sempre pedia 'menos' para Banderas", contou Marisa Paredes em entrevista ao Estado. Deu certo. Ao fugir do histrionismo, o ator espanhol ficou no mesmo tom do longa e criou nuances perturbadoras para sua espécie de Dr. Frankenstein.

O diretor ousa ao fazer de A Pele que Habito uma mistura realçada pelo terror, nos privando das situações cômicas e delirantes que lhe fizeram a fama, com uma trama construída de forma rigorosa e que custa a envolver. Para muitos, esse é o ônus que ele deverá carregar. Por outro lado, ele entrega uma narrativa coesa, surpreendente. Por meio da vingança, o médico de Banderas ultrapassou seus limites. Por meio da ilusão do cinema, Almodóvar entrega uma obra perturbadora, e tem-se um de seus melhores momentos. E em se tratando do gênio espanhol, não é pouca coisa.

03/11/2011

Incluindo Autistas na Ciência

Alysson Muotri


Quando se fala em indivíduos autistas, a maioria imagina pessoas isoladas socialmente, com dificuldade em comunicação e envolvidas em comportamentos repetitivos e estereotipados. De fato, para ser considerado dentro do espectro autista, basta apresentar sintomas relacionados a essas características. Porém, essa definição é restrita, rasa, e não reflete a condição autista em sua totalidade. O lado positivo do autismo é pouco lembrado, o que contribui para problemas de inclusão social.

Indivíduos autistas são extremamente focados e conseguem se dedicar a uma atividade especifica por muito tempo. Em geral, essa dedicação vem acompanhada de uma atenção aos detalhes, sensibilidade ao ambiente e capacidade de raciocínio acima do normal, o que colocaria essas pessoas em vantagem em determinadas situações. Uma dessas situações está presente justamente em alguns aspectos do processo científicos.

A ciência não vive apenas de criatividade e pensamento abstrato. Na verdade, a maioria dos cientistas segue uma carreira metódica, racional, com incrementos sequenciais no processo de descoberta científica. Esse trabalho exige atenção e dedicação acima do normal, por isso mesmo cientistas acabam sendo “selecionados” para esse tipo de atividade. O momento de “eureca” é extremamente raro na ciência.

Da mesma forma, são raros os casos de autistas superdotados, com capacidades extraordinárias. Esse tipo de característica, retratada no filme RainMan, acaba ajudando esses indivíduos a se estabelecerem de forma independente. É o caso de Stephen Wiltshire que vive de sua arte porque consegue desenhar em três dimensões uma cidade inteira após sobrevoá-la de helicóptero uma única vez. Mas e no caso dos outros indivíduos, que não necessariamente possuem uma habilidade tão evidente? Será que poderíamos incorporá-los em alguma outra atividade aonde suas características sejam de grande vantagem?

Indivíduos autistas usam o cérebro de forma diferente. Regiões do cérebro relacionadas ao processo visual são, em geral, bem mais acentuadas. Por isso mesmo, autistas conseguem perceber variações em padrões repetidos mais rapidamente e com mais precisão do que pessoas “normais”, ou fora do espectro autista. Autistas também superam não-autistas em detectar variações em frequências sonoras, visualização de estruturas complexas e manipulação mental de objetos tridimensionais. Retardo intelectual é, quase sempre, relacionado ao autismo. Mas vale lembrar que a maioria dos testes utiliza linguagem verbal, o que coloca os autistas em desvantagem. Esse tipo de abordagem merece uma revisão mais criteriosa. Aposto que se refizéssemos algumas dessas pesquisas os resultados seriam diferentes e contribuiriam para a redução do preconceito.

Muitos autistas poderiam ser aproveitados pela academia. Desde cedo, esses indivíduos demonstram profundo interesse em informações, números, geografia, dados, enfim, tudo que é necessário para a formação de um pensamento científico. Além disso, possuem capacidade autodidática e podem se tornar especialistas em determinada área – ambas as características são importantes no cientista. Algumas das vantagens intelectuais (e mesmo pessoais) de indivíduos autistas acabam sendo atraentes em laboratórios científicos. Não me interprete mal, não estou sugerindo o uso de autistas como objeto de estudo (o que já acontece e é útil também), mas como agentes da descoberta cientifica.

Tenho certeza de que poderíamos incluir cientistas autistas no contexto de descoberta cientifica atual e explorar esse tipo de inteligência. Um exemplo disso é o laboratório do Dr. Laurent Mottron, que trabalha com a cientista-autista Michelle Dawson faz 7 anos. Laurent descreveu recentemente sua experiência empregando cientistas autistas na última edição da revista Nature. Michelle tem a capacidade de manusear mentalmente um número enorme de dados ao mesmo tempo, faz isso naturalmente. E enquanto não conseguimos nem lembrar o que vestimos ontem, autistas como Michelle nos surpreendem com uma memoria impecável. Ela recorda todos os dados gerados do laboratório e tem papel fundamental no desenho de experimentos de outros cientistas. Juntos, Laurent e Michelle já assinaram mais de 14 trabalhos juntos. Outro exemplo clássico é Temple Grandin, autista que obteve seu PhD em veterinária e, usando seu raciocínio visual, desenvolveu novos protocolos para redução de estresse em animais para o consumo de carne. Grandin é atualmente professora da Universidade Estadual do Colorado, nos EUA.

Acredito que autistas podem dar uma contribuição excepcional para o mundo se conseguirmos colocá-los no ambiente ideal. É um desafio social, mas que começa com a conscientização da condição autista. Organizações internacionais já existem com a finalidade de auxiliar autistas a se encaixarem no mercado de trabalho. Exemplos são as firmas Aspiritech, nos EUA, e Specialisterne, na Holanda. Com o tempo, outros lugares vão perceber que a mão-de-obra autista é extremamente especializada e começarão a explorar esse nicho.

Obviamente o autismo traz limitações, como o entrosamento social, problemas motores e a dificuldade de comunicação. Com isso, eles não vão conseguir se adaptar facilmente a trabalhos que envolvam comunicação social intensa. Em casos mais graves, muito provavelmente, vão depender da sociedade por toda a vida. Ignorar essas limitações é tão prejudicial quanto ignorar as vantagens que o autismo pode oferecer nos casos mais leves. Talvez o maior reflexo de uma sociedade avançada esteja em como ela acomoda suas minorias. Enquanto as oportunidades terapêuticas para o autismo não chegam, acredito que o que esses indivíduos mais precisam agora seja respeito, inclusão e, acima de tudo, oportunidades.

A liberdade de decidir

Fernando Reinach


Imagine que você esta sentado à mesa jantando. Na sua frente estão dois copos, um com água, outro com vinho. Durante a refeição você escolhe diversas vezes se deseja tomar um gole de vinho ou de água. Como ocorre cada decisão?

O que percebemos é que existem dois momentos. No primeiro você decide conscientemente o que quer tomar (água por exemplo). No segundo momento, tomada a decisão, seu cérebro direciona sua mão para o copo e você bebe um gole. Nos últimos anos diversos experimentos demonstraram que isso é uma ilusão.

O ato de escolher um copo na verdade ocorre em três tempos. No primeiro momento seu cérebro decide que bebida vai tomar. No segundo momento esta decisão aparece na sua consciência (e você pensa que está tomando a decisão - uma ilusão, porque ela já está tomada). E no terceiro momento sua mão se dirige para o copo. Em outras palavras, a decisão é tomada inconscientemente e somente depois aparece na nossa consciência.

A prova de que este primeiro momento existe, e é real, foi obtida em experimentos nos quais a atividade do cérebro foi medida antes, durante e depois do processo de decisão. Os experimentos colocam em xeque o próprio conceito de que nossa consciência é a responsável por nossos atos. Vale a pena entender como estes experimentos foram feitos.

O voluntário é colocado na frente de uma tela de computador onde aparece somente uma das letras do alfabeto, escolhida de maneira aleatória. A letra é trocada a cada meio segundo. O voluntário coloca a mão esquerda sobre um botão (o copo de água) e a mão direita sobre outro botão (o copo de vinho). A instrução é simples. O voluntário observa as letras por quanto tempo quiser até decidir apertar o botão esquerdo ou o direito. Mas quando ele decidir, deve apertar o botão imediatamente e memorizar a letra que estava na tela. Quando ele aperta o botão, a tela deixa de trocar as letras e as últimas três letras mostradas antes dele apertar o botão são apresentadas. Ele deve escolher a letra que estava na tela quando decidiu qual botão iria apertar. Como o tempo entre decidir e apertar o botão é de menos de meio segundo, a letra escolhida é quase sempre a mostrada meio segundo antes do botão ter sido apertado.

Mas tudo isto é feito com o voluntário dentro de uma máquina de ressonância magnética capaz de medir a atividade cerebral de cada milímetro cúbico do cérebro do voluntário a cada meio segundo. Desta maneira os cientistas conseguem saber o que está ocorrendo em cada pedaço do cérebro, a cada meio segundo, nos 10 segundos anteriores à pessoa decidir apertar um dos botões.

Analisando o padrão de atividade do cérebro nos 10 segundos anteriores à pessoa decidir apertar o botão, e comparando a atividade do cérebro, os cientistas descobriram áreas do cérebro em que a atividade era diferente dependendo de que botão a pessoa escolheria. Agora, analisando somente estas áreas nos segundos que antecediam a decisão, um computador é capaz de, antes da pessoa decidir que botão vai apertar, prever o botão que ela irá apertar.

Quase sete segundo antes da pessoa apertar um dos botões é possível saber com 60% de certeza qual botão ela vai escolher. Dois segundos antes é possível saber com 90% de segurança que botão vai ser escolhido. Isso demonstra que existe um intervalo de tempo em que o cérebro já decidiu, mas a decisão tomada ainda não surgiu no nosso pensamento consciente.

Pode parecer estranho, mas na realidade existe um número enorme de decisões que nosso cérebro toma e executa sem informar nossa consciência. Quando decidimos caminhar, a decisão de caminhar é consciente, mas logo em seguido nosso cérebro assume o controle e coordena a ação de dezenas de músculos nas pernas e braços que garantem que um passo seja seguido de outro. Quando lemos um texto não temos consciência de como o cérebro comanda o movimento dos olhos. Na verdade, a decisão de tomar água ou vinho também é tomada de forma inconsciente e somente depois surge na consciência, criando a ilusão de que estamos decidindo.

Atualmente ninguém duvida deste resultado empírico, mas filósofos e cientistas estão envolvidos em uma ferrenha discussão sobre o significado desta descoberta. Será que ela implica que a liberdade de decisão não existe? Ou será que decidimos livremente, mas de forma inconsciente, utilizando dados de nossa experiência? O mais interessante é que esta descoberta confirma uma das hipóteses mais queridas de Sigmund Freud, de que parte de nossas ações é controlada pelo inconsciente.

01/11/2011

Novo disco de Amy Winehouse sai em dezembro

Diário do Nordeste - 31 de outubro de 2011

Um novo álbum com músicas gravadas pela cantora Amy Winehouse será lançado em dezembro, informou nesta segunda-feira a gravadora Island Records. O disco, intitulado "Lioness: Hidden Treasures" ("Leoa: Tesouros Escondidos") trará 12 músicas - canções não relacionadas umas com as outras, versões alternativas de hits conhecidos e músicas novas - gravadas pela cantora que morreu em sua casa em 23 de julho.
A gravador disse que os antigos parceiros musicais de Winehouse, Mark Ronson e Salaam Remi, têm ouvido gravações da cantora que, segundo alguns, nunca cantou ou tocou uma música da mesma forma duas vezes.
Segundo a Island Records, a dupla rapidamente concluiu que tinha "um acervo de músicas que merecem ser ouvidas, um acervo que são um testemunho da Amy artista e, tão importante quanto, da Amy que foi amiga deles".
O disco, o terceiro da cantora após "Frank" e "Back to Black", será lançado em 5 de dezembro. Ronson e Remi compilaram as faixas com a colaboração da família da cantora e da gravadora. A última gravação de Winehouse em estúdio, uma versão de "Body & Soul" com Tony Bennett, será incluída no disco.

Patologias de grupo

HÉLIO SCHWARTSMAN

SÃO PAULO - Quem quiser vislumbrar a face feia da natureza humana deverá dar uma espiadela nos comentários de leitores a reportagens, blogs e colunas que tratam da saúde de Lula. Há um número não desprezível de pessoas querendo despachar o ex-presidente para a fila do SUS e alguns chegam mesmo a regozijar-se com sua doença.

O fenômeno, com claros contornos políticos, parece estar relacionado à internet e à massificação das redes sociais. Trata-se de uma hipótese especulativa, mas chama a atenção o fato de as manifestações mais deprimentes de intolerância ilustrarem com perfeição o que psicólogos sociais chamam de patologias do pensamento de grupo.

A primeira é a polarização. Junte um punhado de gente com opiniões semelhantes, deixe-os conversando por um tempo e o grupo sairá com convicções mais parecidas e mais radicais. Provavelmente é assim que nascem organizações terroristas.

A conformidade é outro elemento importante. Grupos tendem a suprimir o dissenso. Mais do que isso, procuram censurar dúvidas que um dos membros possa nutrir e ignorar evidências que contrariem o consenso que se forma. É esse o segredo do sucesso das religiões.

Há, por fim, a animosidade. Ponha um corintiano e um palmeirense numa sala e mande-os discutir futebol.
Eles discordarão, mas provavelmente se tratarão com civilidade. Entretanto, se você colocar cem de cada lado, quase certamente produzirá xingamentos e até pontapés.

O que a internet e as redes sociais fazem é criar gigantescos espaços virtuais onde o pensamento de grupo pode prosperar, com o que ele tem de positivo e de negativo. A linha que separa a sabedoria das multidões de delírios coletivos é tênue.

O que os experimentos em psicologia sugerem é que a melhor defesa contra o radicalismo é semear dúvidas, de preferência levantadas por um membro do próprio grupo.

13/10/2011

Muito além do sexo

Comumente associado à contracultura dos anos 1960 e 70, Wilhelm Reich também foi crucial para entender a psicologia das massas
 
 
Paulo Albertini
Mesmo com a crescente elaboração de dissertações e teses sobre a obra do austro-húngaro Wilhem Reich (1875-1957), não é incomum, no próprio universo acadêmico, constatar um reduzido conhecimento a respeito da efetiva participação desse autor no movimento psicanalítico. Quais as variáveis envolvidas nessa considerável miopia histórica e conceitual?
Um dado que, possivelmente, concorre para essa situação está vinculado ao fato de que algumas ideias reichianas foram intensamente propagadas no clima da contracultura que permeou boa parte das décadas de 1960 e 70.
Se por um lado tal divulgação deu ampla visibilidade a Reich, recolocando-o na cena social como uma referência importante, por outro implicou a estruturação de uma leitura limitada de seu pensamento.
Ou seja, enquanto formulações desenvolvidas por Reich desde os anos finais da década de 1920, sobretudo no campo da sexualidade, foram retomadas e ajudaram a compor o referido movimento contestatório, outros aspectos de sua obra, igualmente importantes mas não sintonizados com o clima social dominante, permaneceram à sombra.
Um desses aspectos pouco iluminados foi sua participação na Sociedade Psicanalítica. Wilhelm Reich foi um inquieto cientista/cidadão que, circulando por vários territórios do conhecimento, com maior ou menor grau de aceitação, criou muita coisa.
No que diz respeito ao domínio psicanalítico, creditar a esse fértil pensador um lugar na cena analítica da primeira metade do século 20 constitui algo óbvio. Afinal, ele participou desse movimento por 14 anos, colaborou em alguns de seus órgãos oficiais e publicou artigos e livros que, definitivamente, integram o saber psicanalítico.
Negar tais fatos, como alguns profissionais do ramo tendem a fazer, é, no mínimo, sinal de ignorância a respeito da história e do acervo científico da psicanálise.
Para contribuir para a elaboração de um retrato mais fidedigno desse psicanalista/cidadão, que militou intensamente no campo científico, cultural e político do século 20, busco registrar a seguir alguns pontos da estada de Reich na psicanálise.
O ritual de entrada de Reich no movimento psicanalítico teve início em 13 de outubro de 1920, quando apresentou à Sociedade Psicanalítica de Viena a comunicação Conflito da Libido e Formações Delirantes em Peer Gynt, de Ibsen.
Como a comunicação foi bem recebida, na reunião seguinte, em 20 de outubro, ele foi formalmente aceito. Deve-se notar que isso ocorreu quando contava com 23 anos e ainda cursava a faculdade de medicina em Viena.
Dois anos depois, em 1922, ano de sua formatura em medicina, duas organizações, que receberam toda a atenção do jovem Reich, foram criadas no campo psicanalítico: no plano da discussão da técnica, os Seminários de Técnica Psicanalítica; na esfera do atendimento à população de baixa renda, a Policlínica Psicanalítica de Viena.

Preocupação social
Sobre a primeira, segundo o relato de Reich em A Função do Orgasmo (Brasiliense), no Congresso Psicanalítico Internacional realizado em Berlim, Freud “propôs uma competição: devia-se fazer uma investigação minuciosa sobre a correlação entre teoria e terapia. Até que ponto a teoria melhora a terapia? E, ao contrário, até que ponto uma técnica melhorada permite melhores formulações teóricas?”.
Presente nesse contexto e tocado pela moção do mestre, ainda na viagem de volta do congresso, Reich sugeriu a jovens analistas a constituição de um fórum para o estudo da técnica. A seguir, em uma das reuniões psicanalíticas de Viena, oficializou a proposta de criação dos Seminários de Técnica, a qual “Freud aprovou entusiasticamente”.
Reich recorda que, por causa de sua pouca experiência, não almejava a direção dos trabalhos. O primeiro a ocupar esse lugar foi Edward Hitschmann (1871-1957), depois ela foi assumida por Hermann Nunberg (1883–1970). A partir do final de 1924, ele aceitou o cargo e presidiu os Seminários de Técnica Psicanalítica até o mês de novembro de 1930, quando se mudou para Berlim.
Qual a linha norteadora dos encontros nesse lócus destinado à discussão da técnica psicanalítica?
Em A História da Psicanálise Através de Seus Pioneiros (Imago), de acordo com o psicanalista norte-americano que participou dos seminários em Viena, Walter Briehl (1897-1982): “O objetivo desse seminário era estudar exclusivamente as histórias de casos estagnados e fracassos analíticos”.
Sobre a atuação de Reich na presidência dos trabalhos, registrou: “Dirigia seu seminário com informalidade e espontaneidade. Enfatizava dois temas principais: o estudo dos problemas de resistência individualizados e o estudo das razões dos fracassos analíticos, até então considerados resultantes da inexperiência ou erros individuais e não consequências das limitações da técnica”.

O todo do caráter
Como Briehl indica, pelo menos sob a direção de Reich esse fórum estudava os casos considerados insucessos analíticos – por exemplo, abandono, estagnação do processo, suicídio – e, na verdade, parece que, mais do que os erros cometidos pelos analistas, o foco dos trabalhos apontava para possíveis limitações da técnica.
Fruto do envolvimento com a discussão da técnica, Reich publicou na revista psicanalítica Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse, entre outros, os artigos “Sobre a Técnica de Interpretação e de Análise da Resistência” (1927), “Sobre a Análise do Caráter” (1928), “O Caráter Genital e o Caráter Neurótico” (1929) e “A Fobia Infantil e a Formação do Caráter” (1930). Esses escritos também foram reunidos no livro Análise do Caráter (Martins Fontes).
Grosso modo, tais trabalhos, centrados na segunda tópica freudiana, visam contribuir para a técnica psicanalítica por meio de algumas orientações básicas, assim como:
a) efetuar a análise do caráter como um todo, e não a de sintomas isolados;
b) dado o papel de resistência exercido pela transferência negativa latente, na escolha do que interpretar, priorizar a análise dessa forma de transferência;
c) evitar interpretações prematuras, considerar a estratificação da neurose e caminhar do mais superficial para o mais profundo;
d) ampliar o material analítico de maneira que leve em conta o comportamento geral do analisando, gestos, tom de voz etc.
Em linhas gerais, a perspectiva reichiana na análise do caráter, denominação atribuída a esse conjunto de orientações técnicas, pode ser aproximada, no que diz respeito ao papel mais ativo do terapeuta e, também, quanto à atenção dada à expressividade corporal do paciente, ao enfoque desenvolvido pelo psicanalista húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933).
Já em relação à teorização reichiana sobre o polo de uma hipotética saúde psíquica, um diálogo fértil pode ser entabulado com as elaborações do analista alemão Karl Abraham (1877-1925) sobre o caráter no nível genital do desenvolvimento da libido.
Quanto ao envolvimento reichiano com a segunda organização aqui citada, a Policlínica Psicanalítica de Viena, o então psicanalista nela trabalhou por oito anos, desde a sua fundação, em 1922. A marcante experiência nessa clínica popular, que, segundo Freud, deveria aliar o ouro da psicanálise ao cobre da terapia de sugestão, escancarou determinados temas para Reich.
Em síntese, dado o enorme número de pessoas que buscavam ajuda, quantidade que mesmo com as alterações na forma de atendimento não conseguia acolhimento, o que se impôs foi a questão da possibilidade de prevenção no campo das chamadas doenças mentais.
Caminho polêmico o da prevenção, que Freud já namorara, sobretudo por meio da esfera da educação, mas que, no momento, década de 1920, encontrava-se abandonado. As teorizações do mestre psicanalista àquela altura já apontavam para a tese de que a neurose é o preço pago pela vida civilizada, nada podendo ser especificamente “prevenido”.

Marxismo
Em desacordo com o último prisma freudiano, Reich, na trilha da prevenção e atribuindo responsabilidade às condições sociais vigentes, em especial no que diz respeito ao domínio da sexualidade, aproxima-se do movimento comunista europeu e passa a tentar articular o marxismo com a psicanálise, intento que ficou conhecido na história como freudo-marxismo.
Uma anotação no diário Paixões de Juventude – Uma Autobiografia, 1897-1922 (Brasiliense), de 3 de janeiro de 1921, serve para ilustrar a antiga e intensa motivação social reichiana: “Estou vivo, tenho dois pacientes pagantes enviados a mim por Freud em pessoa! E outros virão – e depois? Escreverei monografias e relatórios – muito bons como tais, naturalmente! E depois? Se a situação do operário não fosse tão desoladora! Política, oh, política!”.
Dessa empreitada freudo-marxista, alguns resultados teóricos são os livros Materialismo Dialético e Psicanálise (1929), O Combate Sexual da Juventude (1932) e Psicologia de Massa do Fascismo (1933).
Sobre o último, cabe notar que Reich, de forma antecipada, apontou os perigos do nazifascismo ainda em 1933, ano da ascensão de Hitler. A repercussão desse material foi tamanha que Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, no consistente Dicionário de Psicanálise (Zahar), a respeito de Reich, em determinado trecho, afirmam: “o teórico de uma análise do fascismo que marcou todo o século”.
Contudo, esse intento reichiano – aproximar a psicanálise e o marxismo –, pelo menos no período de sua elaboração, não encontrou guarida nas duas instituições de origem. Assim, em 1933, Reich foi expulso do Partido Comunista Alemão e, em 1934, da Associação Psicanalítica.
Nos anos seguintes, até sua trágica morte nos Estados Unidos, em 1957, Reich trilhou um caminho independente e elaborou, sobretudo, as bases do que atualmente conhecemos como a psicoterapia corporal – isso sem deixar de produzir para as áreas da psicologia política, educação, biologia e física.

Paulo Albertini é professor no Instituto de Psicologia da USP

28/09/2011

O apocalíptico profeta: Alessio Rastani

Poesia: Imersão - Verônica Oliveira

Imersão

Verônica Oliveira

Ás vezes tentando mergulhar em mim,
Deparo-me com águas turvas, de marés bravias e cheiro acre.
Assustada, recuo e desisto da travessia.
Quando ousada, insisto e ultrapasso as primeiras barreiras,
descubro águas límpidas de transaparências mil e entre a paz e o prazer do mergulho profundo,
alcanço extasiada o tesouro de conchas, corais e opalas.
Um peixe lilás vem segredar-me ao ouvido mistérios tantos que em outros tempos,
valor nenhum teriam, ao emergir,
entendo a procura incansável do pirata,
é que segredos de águas profundas, são antídotos para as dores da terra firme.

13/09/2011

2011: o ano em que tudo começou


Voltou-se a falar em política radical. Isso não significa que devamos voltar ao socialismo real, tão fracassado quanto capitalismo real

Por Bruno Cava, do Outras Palavras e Universidade Nômade

O muro de Berlim caiu em 1989. Nos anos seguintes, o socialismo real desabou como um castelo de cartas. Colapsou em poucas semanas o império que vencera quase sozinho o Terceiro Reich e assombrara o planeta com o Sputnik. Menos do que por conspiração imperialista, pela própria incapacidade do regime socialista. As emendas de Gorbatchov haviam saído piores que o soneto. Nas décadas anteriores, os insatisfeitos atravessaram en masse a cortina de ferro. Até que um dia eram tantos os descontentes que os muros perderam a sustentação e os ditadores caíram um após o outro. A esquerda não adianta se iludir: as pessoas desertaram dos países do antigo bloco soviético. Migraram voluntariamente para o capitalismo de mercado. Diante dos blocos cinzentos de apartamentos em Tirana e Bratislava e do tédio do realismo soviético; o ocidente com suas BMW, Disneylândias, Big Macs e Michael Jackson só poderia mesmo parecer uma utopia maravilhosa.

Assim como vazaram da URSS e seus satélites, as pessoas desistiram dos partidos socialistas pelo mundo, convertidos em curiosidades anacrônicas. E foi tudo por água abaixo em 1991. Aí veio a tese do fim da história. A luta de classe acabou. Marx estava certo, mas perdeu. Não cabem mais grandes narrativas históricas. Em gabinetes e coquetéis, os capitalistas celebraram a vitória na Guerra Fria e o triunfo de seu modo de produção. Do outro lado, a ressaca das forças de esquerda. Rendida à ideologia, paulatinamente se acomodou no insosso discurso de direitos humanos, numa militância descafeinada “contra todas as formas de preconceito”. Os partidos de esquerda tucanaram a prática.

Mas por trás do fim das narrativas, se consolidou uma única grande história. Se não estamos no melhor dos mundos na política, estaríamos no menos pior. Isto é, democracias constitucionais representativas, baseadas na propriedade privada e na divisão social do trabalho, numa ordem global partilhada entre a monarquia imperial dos EUA, a aristocracia financista-empresarial e a plebe explorada.

O totalitarismo passou a ser o outro do capitalismo. Todo o século 20 achatado entre a humanidade-que-prevaleceu e a ditadura das ideologias. Constituir novos sujeitos revolucionários? Seria repetir os erros do século. Porque, não tem jeito, o poder do povo acaba usurpado pela vanguarda revolucionária e então toda a revolução se perde em nome de quem a enuncia. Não arrisquemos o pouco conquistado, vamos com calma, com reformas graduais aqui e ali, na medida do possível. A divergência aceitável passou a ser entre neoliberais e social-democratas. Os primeiros, convictos defensores da aristocracia do “mercado livre”. Os segundos, a favor de reformas graduais e pontuais, por um capitalismo mais humano ou sustentável. A palavra “revolução” passou a atestar a ingenuidade ou falta de bom senso do interlocutor. Não é pra levar a sério, em pleno raiar do século 21, quem ainda acredita em revolução, comunismo, política radical… Somente em 2001, na esteira das marchas anticapitalistas de Seattle e Gênova, o filósofo Antonio Negri e o professor Michael Hardt viriam a publicar um manifesto revolucionário à altura dos desafios, com o livro Império, perturbando o consenso.

Nessa terra arrasada que foi a década de 1990, se formou a minha não-geração. Ao som do Nirvana, Plebe Rude, Garotos Podres, Pearl Jam, fragmentada e desorientada como num filme de Quentin Tarantino, entre partidos esquerdistas falidos e a rendição cabal à classe dominante presidida por Collor e FHC; muitos afundaram no niilismo eclético do pós-tudo. Pior do que o pavor do holocausto nuclear e da AIDS dos 1980, a completa ausência de perspectiva em meio à banalidade do showbiz, ao politicamente correto reformista e ao neoliberalismo.

Kurt Cobain se matou aos 27 com um tiro na cara, enquanto Ewan MacGregor mergulhava nos esgotos lisérgicos dessa geração ausente, em Transpotting. Não poderia ser mais oportuno o gran finale, quando os Estados Unidos comeram o pão que seu governo amassou durante o século. O Centro do Comércio Mundial (WTC) estremeceu e ruiu, abatido pelo Frankenstein que ele próprio despertou e alimentou: a Al Qaeda de Osama bin Laden. Naquele 11 de setembro, um sentimento ambíguo de horror e júbilo percorreu a não-geração em todo o planeta. Ressentida, foi ao delírio sádico com as imagens hollywoodianas ao vivo, excitação mais intensa do que assistir à Tropa de Elite.

Portanto, não dá pra passar em branco a singularidade deste ano. Se a geração somente se constitui na sua luta afirmativa por uma vida menos ordinária, começamos. O século acabou em 2001, mas recomeçou em 2011. Só interessa o sujeito quando em atividade: subjetividade. A resistência já é em si um mundo, que se autovaloriza e autolegitima. Erra feio quem não enxerga os pontos de convergência, o comum de primavera árabe, Túnis e Tahrir, a onda 2.0 pela nova Europa, Itália, Grécia, Inglaterra, Espanha, entre a afirmação de direitos de indígenas e negros por toda a América do Sul, as ocupações de Wisconsin, o software livre, o Wikileaks, zapatistas, autonomistas, pós-operaístas, comunistas, hackers, anonymous e anarquistas, o movimento pela cultura digital e tantas e tantas coisas que estão rolando e só não vê quem não quer ver.  Nisso não importa a idade, porque juventude e velhice não podem ser conceitos biológicos. A grande imprensa finge que não, mas o movimento da geração é local no choque de forças, mas global na proliferação de afetos ativos, na formação de redes.

A história não acabou. A revolução não saiu da moda. Quem saiu da moda foi a ideologia dos 1990. Confrontada com os acontecimentos, não está conseguindo se sustentar. Hoje, os neoliberais têm dificuldade para socializar a crise, distribuindo as perdas. Se todos passaram a falar em “capitalismo”, é porque as coisas não vão bem para a ordem vigente. A aristocracia de mercado apenas agravou a crise. Os sábios de olhos azuis faliram de vez a economia mundial. No território dos estados-nações ricos, generalizam-se a pobreza, a violência policial, o racismo civil. 1% da população americana detém 80% da riqueza. Não há mais sinal de estado de bem-estar em boa parte da Europa, mas warfare state, fundado no controle social e na ideologia da guerra. A grande imprensa não consegue esconder o mal estar, ao mesmo tempo que novas mídias e redes sociais lhe arrancam a opinião pública. Voltou-se a falar sem pudor em política radical.  Isto não significa que devamos voltar às apostas do socialismo real, tão fracassado quanto o capitalismo real.

O esquerdismo também continua fora da moda. Porque não possui leitura do movimento generacional. Como sempre, desde o socialismo utópico e dos esquerdistas contra Lênin, se recusa a viver o seu tempo histórico. Não consegue se identificar com as lutas reais, nem sabe como funcionam. Para o esquerdismo, as resistências, marchas e novos sujeitos não seriam anticapitalistas o suficiente. Pretendem uma Antígona de negação abstrata. Curioso como os mais “revolucionários” serão os últimos a percebê-la. Talvez quando se derem conta a revolução já terá passado. Não perceberam que a contestação radical não parte contra o Sistema. Não se formula assim, não circula assim entre as pessoas e movimentos, sequer depende de uma concepção clara do que seja o Sistema. Ninguém vai se revoltar porque alguém o convenceu que um outro sistema seria mais interessante ou produtivo ou igualitário. Essa conscientização é simplória.

A geração, os jovens, os precários, os pobres, os oprimidos, os humilhados, os movimentos insurgentes e as multidões queer já lutam o tempo todo e se revoltam todos os dias. Constituem eles mesmos os horizontes da geração, suas narrativas e organizações políticas. São múltiplos focos, pautas e frentes das lutas reais que, intensificados em sinergia, aos poucos vão revolucionando, por dentro e para além, o sistema político-econômico, ou seja, a cultura de seu tempo.

Em suma, nem capitalismo real, nem socialismo real. Querem outra coisa. O quê? Vá e veja!

Fonte: http://www.outraspalavras.net/2011/09/12/2011-o-ano-em-que-tudo-comecou/